A grita dos batedores avultava em intensidade. A matilha em busca accesa estava perto, subia e descia as penedias, entrava nas covas e na negrura dos mattos. Os dois amantes, ouviam perto os latidos; sentiam o ganir e o choro proprio da canzoada na ancia da procura. João da Cunha, paralytico na sua vontade e remettido á impotencia do seu aspero desespero, não falava: fechou os olhos para não ver, tapou os ouvidos para não ouvir. Maria, com a sua alma candida cheia ainda de fé e esperança, estava de joelhos, as mãos erguidas, orando fervorosa e supplicante, o pallido rosto innundado de lagrimas. Deu um grito e interrompeu a prece, ao ver por entre a espessura da velha urze que tapava a bocca do antro onde se tinham escondido, o negro focinho d'um valente cão do Crasto, que rosnava. João ergueu-se de repente, apurando todos os seus sentidos, e ficou ameaçador com o punhal na mão. O animal recuou, subindo para um penedo d'onde principiou a ladrar e a arremetter com ferocidade. Era um animal medeano, mas de cabeça poderosa: tinha o focinho agudo, a bocca rasgada como a dos lobos, as orelhas cortadas, em volta do pescoço uma colleira de pregos. O corpo zebrado de negro, em fundo pardacento, lembrava a pelle da hyena. O pello do dorso, mais cerdoso, estava erriçado pela colera; os olhos sanguineos, em circulo negro, olhavam com ferocidade; os dentes brancos, fortes, eguaes, arreganhavam-se deixando ver a lingua comprida, como uma chamma. Ladrava com desespero, resfolgando-lhe as narinas, pois via João da Cunha, com o punhal na mão, em attitude aggressiva. Outros cães da matilha vieram junctar as suas vozes ás do denunciante; os batedores, suppondo peça de caça renitente, algum javalli encurralado entre penedos, animavam com gritos os animaes, em quanto se iam approximando.

O lance era de extremos perigos. João da Cunha, palido como a morte, estreitava ao seu valente corpo, o leve corpo de Maria, cujos irmãos, ao suspeitarem do valor do signal dado pelos cães se tinham já reunido juncto da ermida para conferenciarem.

—São elles—disse Thomaz, o de coração mais duro. Examinei aquella casa, tem coisas que lhes pertencem. Ha um cavallo da Maceira.

—Não nos fugirão agora—disse rancorosamente Vicente.

N'estas palavras havia alegria e impiedade. Concertaram o seu plano, que consistia em descerem, ao mesmo tempo, de quatro pontos differentes, convergindo para o sitio onde o ladrido se accentuava mais vivo e feroz. Porfiavam por chegar primeiro que os batedores, para só por si liquidarem este pleito. Tinham calma no aspecto, mas levavam no coração, muito mais goso e ferocidade, do que teriam para desalojar a mais temivel das féras.

Tamanha era a perseguição que os mastins lhes faziam que João e Maria tiveram de sahir do seu esconderijo, para ficarem em terreno aberto, onde se pudessem defender. Os cães do Corcovado, ouvindo a voz carinhosa da sua ama, tinham-se afastado da contenda; mas os restantes, especialmente o que primeiro os descobrira, mostravam-se de cada vez mais inimigos. Houve um instante em que o assedio se tornou tão violento que João da Cunha pronunciou alto:

—Maus raios! Eu sem lhes poder chegar!...

N'este apertado lance é que Maria descobriu, n'uma clareira, cercada de urzes e medronheiros, passar seu irmão mais velho, o Manuel, com a espingarda ao hombro, dirigindo-se para o sitio onde os cães ladravam.

—Estamos descobertos!—disse apontando.

—Inferno!—bramou João da Cunha. Não ter comigo as clavinas!