Á chegada da musica e do fogo, a creadagem de João da Costa, logo appareceu no largo da entrada a distribuir copos de vinho, por toda aquella gente que vinha suada. Foi um despejar como nunca se vira: «e vivam os senhores fidalgos, por muitos annos e bons», «e viva a senhora morgadinha que ha de arranjar um namorado de truz!». Em quanto houve mollete nos cestos foi estacinhar e beber; achando-se já fartos, recomeçou a musica com tanta furia, que até parecia que se estava no dia da festa. O fogueteiro para mostrar a sua fazenda descarregou-a ali mesmo no quinteiro, pondo as figuras em correntesa, para que todos as vissem e admirassem. Havia realmente progresso e modernice quer nas attitudes, quer no vestuario, pois tudo era mais humano e natural. Os corpos com outros geitos e menos rigidos; nas roupas, os papeis semelhavam fazendas—de seda pareciam as saias e os corpetes, de casemira as calças e casacas. Até era pena que tão bellas coisas fossem destinadas a rasgões violentos de bombas e a arderem no meio da alacridade do povo! Tudo tinha, porém, o fim de augmentar a magnificencia da festa em honra de Santa Margarida e dos formosos doze annos da sua afilhada. João da Costa desceu com alguns amigos a apreciar de perto tanta maravilha e perfeição e com um gesto orgulhoso de cabeça, indicando um monte especial de foguetes perguntou:
—São os taes?
—Sim, senhor—respondeu o Osti.
—Parecem cabeças de toiro! Subirão?
—Como perdises que encastellem, verá! Iriam ao ceu se fosse preciso.
Eram as faladas maravilhas, timbre e gloria do famoso artista. Os creados da casa, com as canecas vasias na mão pasmavam deante d'ellas, considerando absortos, que alma damnada teriam dentro, para com o estrondo ao rebentar, metterem medo a quem estivesse mesmo a grande distancia.
Como fosse dia de sexta feira a musica retirou-se depois do beberete, para voltar na noite seguinte, que era a do arraial. Antes havia a ultimar os trabalhos de ornamentação da capella e escolher bem o sitio do fogo preso, para que fosse gosado por toda a gente. Porém com o fim de não haver descontinuidade no enthusiasmo pela apregoada festa, chegaram n'este dia pela volta das onze da manhã os tres zabumbas, as seis caixas e a respectiva gaita de folles, que João da Costa encommendara, e entraram na freguezia d'um modo ovante, tocando com verdadeira imponencia, para despertar a alegria nos corações. Atravessando o povoado em passo lento, solemne e compassado enchiam os ares com o estrondo magnifico dos seus instrumentos, e logo se dirigiram á casa de habitação dos festeiros para os saudar. Então ali é que foi o bom e o bonito, depois de despejarem mais de um cantaro de vinho sobre uma boa duzia de postas de bacalhau e brôa!... Como ficassem alegres e satisfeitos, quizeram mostrar melhor a sua gratidão e artes; por isso se proposeram a exhibir todos os segredos dos seus instrumentos. Bombos a um lado, caixas ao outro e gaita no centro, começou o grande apparato! Os zabumbas formavam um fundo de quadro de paisagem colossal e montanhosa; os seis tambores pareciam alegres comadres a chasquear e a ralhar; o da gaita de folles pavoneava-se desvanecido com ella nos braços, encostada ao hombro como um tropheu!... Veio a familia e vieram os convidados á janella; o rapazio gaudiáva dando cabriolas. N'um certo momento dois dos caixas, que andavam sempre em rixa, separaram-se dos companheiros para repenicarem com todo o primor, dobrando o rufo com elegancia e mestria. Era um florear de baquetas em tom cadenciado e tremulo sobre a pelle distendida das fallecidas cabras. Mostravam prestesa, pulso rijo e flexibilidade de musculos. Havia em tudo aquillo enthusiasmo e coração de valentes, o que se tirava da energia facial com que se combatiam, procurando reciprocamente cançar-se. No mais vivo da sequestra, um dos de zabumba, que tambem presumia de sua fama, saltou para o meio do terreiro e principiou muitas variações, saltando e pulando com mil requebros. Era homem agil e physionomia viva de olhos bugalhudos. Com a baqueta da mão direita feria o instrumento em todas as posições imaginaveis: por cima da cabeça, com elle horisontal á ilharga, suspenso nas costas, deitando-se no chão com elle sobre o ventre! Os companheiros seguiam-lhe a destresa de athlecta, com sorriso sceptico e molle, tirando dos seus bombos sons mais baços.
O gaiteiro vendo applaudidos por todos os assistentes aquellas galhardias, não lhe consentiu o animo ficar em obscuridade. Era homem baixo e grosso, physionomia ossea, mas esperta. Filho d'outro de Compostella, herdara de seu pae o instrumento e a prenda de o tocar com distincção. Afastando-se dos zabumbas e caixas triviaes, principiou a rabear entre os tres que já se exhibiam com apparato e luxo de ademanes. Quiz tambem chamar sobre si a attenção dos festeiros. Com o ventre do instrumento impando, requebrava-se em passo cadenciado e dolente de dança gallega: tirava; ora sons plangentes e maguados como gemidos tristes; ora um psalmear monotono e roufenho, que ondulava no ar como o vôo pesado d'um ganço; ora guinchos agudos como estylêtes ou espinhos que entrassem nos ouvidos. Saracoteava-se com o instrumento ao collo, mechendo os dedos n'uma especie de canudo de flauta e soprando-lhe no ventre por um bico de cegonha.
Os bombos a falar grosso, as caixas a rufar certo, o gaiteiro a tocar variado, tudo n'uma paisagem primaveril de folhas tenras, um bom e carinhoso sol de primavera a aquecer, era deveras divertido e excentrico! Uma atmosphera empregnada dos aromas de mil plantas, tornava esta sexta feira de Paschoela risonha e feliz, o que bem se reconhecia dos semblantes de toda essa gente, pois tinha alma para o sentir.