Elle apparece-nos como Chiron ensinando o mysterio da força aos que o cercam, mas é n'isto que está o attentado á arte, ensinando uma rotina arcadica, palavrosa, nulla de idéas, de sentimentos falsos, que já se nota na mocidade, que o admira. Sobre tudo a má fé, é o que mais depressa se communica; um critico chama ingrato a um auctor, que preoccupado com o seu trabalho não soube, nem teve tempo para ir agradecer-lhe as inepcias; e promette verberal-o, alludindo fóra de proposito á sua nebulosidade. Cada vez me convenço mais do celebre dito de Pope, que se pode applicar á maioria dos que escrevem: «Que um mau escriptor é sempre um mau homem.»
Um dos argumentos do auctor das Cartas de Ecco e Narciso, contra este movimento e esforço para dar ideal á poesia, é o falar da plastica e da Esthetica como coisas futeis, e tanto, que os grandes poetas antigos não as conheceram. Homero, Dante, Virgilio, todos os genios de todos os tempos não sabiam o que era Esthetica? Seguramente o sr. Castilho acostumado a rimar palavras e ensacar periodos em arrendondadas periphrases, tomou só a palavra Esthetica, creada por W. Hamilton (Lectures on metaphysics, t. I) por que não se quiz dar ao trabalho de comprehender o que esta designação contém. Ha na natureza do homem o poder de determinar a generalidade das coisas, de descobrir n'ellas o ponto em que a vontade de todos se harmonisa, a força mysteriosa de harmonisar o mundo, o sentimento do bello, o ideal; mas a este dom sublime anda tambem adjunto o poder de dar fórma, trazer á realidade da vida os sentimentos mais intimos—é a arte. É a união d'estas duas forças que constitue verdadeiramente o genio; é o que tem feito a apotheose dos poetas eternos. Ora, sr. Castilho, ao estudo e contemplação objectiva de todos estes factos do nosso espirito, á sua reducção a sciencia é que se chama Esthetica, do mesmo modo que as cathegorias do raciocinio formam a Logica. Antes de Aristoteles ter determinado as leis syllogisticas, ninguem tinha pensado, segundo o modo de vêr do sr. Castilho, ou pensava-se bem sem ellas. O sr. Castilho não é bom Homero, mas dormita sempre embalado ao canto das cigarras debaixo da olaia, e não sabe o que é o homem, nem procura saber a razão do movimento da sua epoca.
Mas para que serve a Esthetica?
É facil de ver. O homem obrando primeiramente por impulsos instinctivos, tende continuamente a emancipar-se d'essa fatalidade tornando todos os seus actos do dominio da consciencia; as sciencias nascem d'este mesmo esforço incessante; não chegam a constituir-se antes de uma longa observação de factos successivos em que se basêem. A Esthetica é a consciencia do sentimento do bello; mas como o sentimento do bello é a communicação espiritual do homem com o mundo, vem a Esthetica a ser a synthese de todas as outras sciencias que procuram as propriedades e qualidades das coisas materiaes. E o ideal? É a passagem da realidade natural para a realidade artistica.
Sobre tudo uma das primeiras condições da arte é a verdade; e a verdade nunca se encontra aonde não ha caracter. A arte sem a verdade dá as ampliações rhetoricas, insuffladas de synongmos, a que entre nós se chama estylo classico, á Frei Luiz de Sousa, em que se relê depois de lêr, e se torna a lêr, em que se voltam de mil maneiras as formas arredondadas, em que não ha um pensamento, e em que prima o sr. Castilho. E esta sua prosa é muito portugueza na dicção; portugueza de dois seculos atraz, quinhentista pela fórma intertelada e urbana, seiscentista pelo requinte, e sobre tudo dissonante para quem conhece a verdadeira eurythmia da lingua, pela mistura insólita e desnatural da gravidade academica com as locuções desenfadadas e legitimas do nosso povo.
Ainda ha por ahi quem pensa que uma lingua não progride com as necessidades intellectuaes ou materiaes de um povo. Não admira, porque entre nós as necessidades intellectuaes são nullas, e o sr. Castilho é o primeiro a reconhecel-o, quando se enfaixa nos Sousas e Lucenas e decreta urbi et orbi as gallanices do estylo. Nos Quadros Historicos, obra tão falada e gostada, abundam paginas infindas, safaras de idéas, seccantes pelas extorsões dos elementos da oração, mas portuguezas de lei. Citámos um livro, justamente aquelle em que o sr. Castilho levantou um protesto contra a eschola romantica de Victor Hugo; n'aquelle prologo diz heresias inauditas contra o ideal; mas sua excellencia veio como os falsos prophetas, queria excommungar, e as palavras do esconjuro converteram-se-lhe em bençãos. De tudo o que o auctor da Ode arcadica a D. João VI tem escripto até ás traducções paraphrasticas de Ovidio, se alguma cousa ha que se lêa, é imitação da escola romantica: tal é o drama Camões. As obras do sr. Castilho tem o valor economico da raridade. É o que faz com que se fale nos Quadros Historicos, porque poucos os tem visto; lidos, e conhecida a intenção do auctor, occupam um logar somenos ainda abaixo do que é mediocre. O sr. Alexandre Herculano emprehendeu a Historia de Portugal com este espirito severo da escola analysta de Guizot e Macauley; tinha de sacrificar, de nos expropriar, por assim dizer, a bem da verdade, das nossas lendas e tradições nacionaes, com que os nossos Herodotos haviam bordado a historia dos primeiros tempos. Era preciso que outra mão fosse respigando na seara cortada, como Rutth. Só um poeta, com a sua vara magica, poderia fazer apparecer os thesouros da imaginação. O sr. Castilho votou-se á empreza. Mas como? Falto de imaginação lançou-se a romancear a capricho aquellas lendas que já estavam dramatisadas na ingenuidade da chronica pelos bons Froissarts. Assim falsificou-lhes o espirito, dando-se-nos como contemporaneo d'ellas. É uma atrocidade imperdoavel, tanto maior, quanto n'este tempo já tinha apparecido o livro monumental de Jacob Grimm sobre as Tradições allemãs, em que o moderno Du Cange, depois de haver consumido dez annos de vida n'esse trabalho, ensina como se restauram estas preciosidades. As grandes descobertas são para todos.
Já nos Quadros se nota em sua excellencia, um desejo de imitar aquella esperteza de Chartterton que inventou o monge Rowley, a intuição de Macfferson inventando Ossian, ou o ardil de Psalmanazar que imaginou um outro Japão. Escrevendo o Auto da boa Estreia deu-se por muito feliz em enganar o consciencioso bibliographo José Maria da Costa e Silva no seu Ensaio bibliographico critico.
A arte não é isto! a mentira é uma perversidade de morte, principalmente no que toca ao sentimento, que não discute, mas se deixa impressionar sómente. Não é assim que se é pontifice das letras.
Digamos a verdade toda. O sr. Castilho deve a sua celebridade á infelicidade de ser cego. O que se espera de um cego? Apenas habilidade. É uma celebridade triste porque tem origem na compaixão, e a compaixão fatiga-se. A primeira vez que o seu nome foi citado em um trabalho litterario em Paris, no Parnaso Luzitano, era d'esta circumstancia que tirava os motivos da admiração o sabio auctor d'aquelle esboço de historia litteraria. Foi tambem a inspiração de Victor Hugo em um pequeno distico, quando retribuiu com a immortalidade as palavras injustas contra a Notre Dome.
O publico tem direito a que lhe respeitem uma celebridade que fez. É de razão. Mas como se fez esta celebridade? Do mesmo modo que os insectos formaram a enorme cordilheira dos Andes, como a defecação dos passaros, que emigram, forma ilhas no meio do mar. Com o tempo. A primeira impressão que as obras d'este auctor causaram, quando appareceram, foi boa; era preciso animar a formação da litteratura. Lia-se apenas O Feliz Independente.