—Quanto mais estudo (disse-me elle, cansado de andar e de fallar), tanto mais se me alarga a solidão do espirito; cada dia encontro menos pessoas com quem prive, caminho, e a cada passo me vão ficando mais longe. Quem não entender{45} isto e se revoltar contra a minha frieza, dirá que é orgulho, e egoismo até; os que se doerem de mim dirão que é misanthropia. A meditação é como um segredo, que pésa quando não ha a quem se conte; mas se eu encontrasse uma mulher a falar-me de amor, sacrificava-me a ella, para vêl-a mais ditosa que a pobre Frederica de Göethe. É a primeira vez que conversamos. O meu amigo deve estranhar esta liberdade; sou assim, amo a franqueza quando não busca rodeios para convencer, e tem a força da expansão sincera, a ingenuidade simples, que não sabe alliar a amisade com as pragmaticas. A franqueza d'este modo admira-se, e eu tanto mais, porque a tenho visto sempre usada como pretexto para dizer insultos impunemente. Acho-me solitario no meio da sociedade, e tenho ainda não sei que terror de me vêr perdido, atropellado entre as massas. Vivo assim desde criança; como criança fui tambem poeta, cantei porque tinha medo, queria distrahir-me. Eu chamo-lhe meu amigo, porque me escuta; era quanto bastava para lhe ficar reconhecido. A maior parte das pessoas que me ouvem riem-se de mim. Falo sobre a genese das religiões, a origem dos governos, as relações da arte com a sociedade, todos os grandes problemas que nos agitam; abanam a cabeça, e dizem com ár compassivo: «Utopias dos vinte annos.» Outras vezes, descrevo a formação da terra, procuro explicar as evoluções da anthropogenia com a cosmogonia, o aperfeiçoamento{46} dos sêres e a sua decadencia pelo gráo do calor que a materia conserva e vae irradiando; obedeço á pressão da causalidade que me obriga a explicar a mim mesmo os phenomenos que vejo, e riem-se, perguntam-me onde estudei, que diplomas tenho das Academias, e voltam-me as costas ludibriando-me, porque não querem admittir a sciencia sem a auctoridade, vêem como profanação um leigo explicar o que só está á altura da intelligencia dos cathedraticos. Tenho tido muitos d'estes desgostos na vida. Os homens que têm certa bondade, tambem me dizem, que a edade me fez todo idealista, que os annos me darão um caracter pratico de que careço. Ás vezes, tendo passado a noite em vigilia a pensar, cheio de frio, com fome, canso-me a fallar, para receber, ao cabo de um esforço inaudito, uma gargalhada brutal. Deos sabe quanto custa affazer-me á solidão absoluta. A solidão, é verdade, devasta o espirito, porque obriga á representação interior, dando-lhe um relêvo maior do que a realidade. Serão utopias tudo quanto tenho na cabeça? É uma lei natural. Ha na vida intellectual dois periodos, um de creação, outro de realisação. Hoje concebo um ideal que não posso determinar; porque ha de vir tempo em que saberei sómente dar fórma ao que senti. Convem não rir desapiedadamente de todas as theorias da mente febril da mocidade, porque ao approximar-se a edade esteril da força, quem ha de realisar o que não ideou? Bem sei que um grande poeta{47} disse antes de mim: «Uma grande vida, é um pensamento da mocidade realisado na edade madura.» Em tudo isto vejo uma força desoladora no homem, que o domina em tudo, e era pela analyse d'ella que poderiamos entrar na essencia dos actos de sua vida—é o egoismo. Quando o homem se vê compellido a reconhecer uma superioridade no seu semelhante, fórma d'elle um semi-deus, porque, então já não é outro homem que o sobrepuja. Christo é uma idéa transmittida ás gerações, que ellas concretisaram em um nome para comprehendel-a. E depois, porque um homem egual a nós a manifestava, o egoismo salva-se fazendo-o—filho de Deos. Arranca-se a Illiada das mãos de Homero, porque o orgulho do homem não consente que o homem o exceda. Vico representa na sua hypercritica a humanidade. Perguntamos, quem inventou a alavanca antes de Archimedes demonstrar a sua lei? quem descobriu o parafuso, a serra, bases de toda a mechanica? O egoismo occultou quanto pôde o segredo; apenas a mythologia responde com uma divindade allegorica, um Saturno, Perdice, Pan e Triptolemo.—

O pobre rapaz falava de um modo precipitado, convulsivo, como se lhe faltasse o ár. A escuridão da noite não deixava lêr-lhe no rosto a volubilidade da expressão. De repente, parou á porta de um casebre velho, situado em uma viella estreita e infecta. Pediu-me para subir. Eu não podia resistir-lhe; cada palavra vibrava-me cá{48} dentro como um arranco. Fomos tacteando nas sombras, por um caracol de escadas carcomidas, que nos faltavam aos pés. Ia-se-me esclarecendo o mysterio d'aquella existencia. Por fim chegamos a um quarto pequenino e baixo, com um ár mephitico, saturado de fumo de tabaco. Elle acendeu uma vella de cebo roida dos ratos, que tinha presa no gargallo de uma garrafa; a enxerga com uma manta embrulhada achava-se a lastro. A miseria arripiava-me. O pobre rapaz deitou-se sem forças; vi-lhe então, á luz mortiça, uma pallidez cadaverica. Tive medo do seu silencio. Elle estava envergonhado de tanta indigencia, e procurava rir-se, ridicularisando-a:

—Não extranhe vêr-me n'esta trapeira; ha uma analogia entre ella e a minha cabeça, onde as idéas refervem em tropel confuso, e se conflagram e se destroem. Estas teias de aranha são ás vezes a minha distracção nas horas de enfado; divirto-me como o Mascara-de-ferro, como Spinosa, Magliabechi e Silvio Pellico. É em que me pareço com os grandes homens. Deixemos isto; conversemos a serio diante de quem não sabe rir-se de mim. Eu tambem tenho pensado na organisação de uma sociedade perfeita, como Platão e Cicero, Campanella, Thomaz Morus e Fenelon; mas só encontro essa perfeição no momento em que os vinculos do direito que prendem as nossas relações sociaes, e os mysterios e terrores que as religiões incutem, fossem excluidos pelo desenvolvimento completo da idéa{49} do Bello; quando deixassemos de praticar uma acção, que vae contra as maximas do direito ou da religião, não por ser injusta ou immoral, mas porque repugna ao sentimento do bello. A Arte sobre tudo! é ella só que nos póde alcançar conjunctamente a perfeição plastica. Assim a anarchia, a negação absoluta de todo o governo fóra de nós, constitue o ideal do estado; a lei era a consciencia de cada um, a consciencia sempre incorruptivel a todo o interesse egoista. Porque a Arte é synthetica, mais do que a religião, a philososphia e a moral, porque só ella faz o accordo incondicional das vontades por uma emoção universal. Como chegar um dia a esta perfectibilidade! Não se vae lá de repente, a natureza não dá saltos. As revoluções pela idéa pódem tudo; não se confia n'ellas, nem se emprehendem, porque os resultados só os gosa o futuro. É esta sciencia nova da Sociologia que ha de levar mais longe a humanidade. A Edade media, o grande lethargo depois da civilisação da Grecia e Roma, foi ampliada pela passividade mystica do christianismo; é uma impiedade que ninguem talvez acredita. A esmola, a onzena sobre a bemaventurança, era o principio da dependencia e da desegualdade, a aniquilação do trabalho e da actividade; a reprovação dos juros, o stigma impresso sobre o judeu, elemento industrial na sociedade nascente, eram a inercia do capital e do espirito de empreza. A verdadeira doutrina é um cathecismo popular de economia social. É por esta{50} sciencia que nos ha de vir a libertação, desde que o homem reconheça que produz mais do que consome. O trabalho é o unico titulo da propriedade, a sanctificação da vida. O trabalho é para mim uma consolação, um orgulho; sou como Plauto, que fazia rodar um moinho, e nas horas de descanço escrevia as suas comedias; como Spinosa, que gravava vidros para se alimentar nas horas em que se absorvia no quietismo do pensamento e ampliava a synthese physica de Descartes á moral humana; eu toco na orchestra de um theatro; de dia penso.

E o pobre rapaz parou em meio, de cansado; depois recomeçou, fazendo-me a historia do trabalho:

—O homem ao destacar-se do ultimo élo da cadeia dos sêres, sentiu-se forte e senhor da terra. A natureza offerecia-lhe por toda a parte seus peitos uberantes, e este rigosijo de harmonia ligava a sua existencia á vida pantheistica do universo. A grandeza do homem n'este cyclo genesiaco, symbolisaram-na os escriptores sagrados no reflexo de graça e de innocencia que descia das alturas sobre a sua fronte; os escriptores profanos, menos inspirados pelo idealismo espiritual, retrataram-a na plastica, nas fórmas gigantes do corpo e na magestade homerica de uma estatura heracleana. N'este primeiro dia, foi o homem como os anjos, via e falava face a face com a divindade; n'este primeiro dia foi um gigante da terra, dominava pela força cyclopica. Ambos{51} os dois mythos têm um fundo de verdade revelada pela inspiração e intuição do passado aos prophetas da historia. Senhor e rei na creação, o homem deixou-se enleiar no seio voluptuoso da natureza. Admirou e caiu adorando. N'esse instante descobriu a sua nudez, e escondeu-se; sentiu a fome e a sede e as dôres do desterro. O outro mytho, mais violento e terrivel, para filiar n'essa queda o naturalismo e anthropomorphismo, fal-o mergulhar no bruto, e o satyro, o minotauro, é o homem a confundir-se na cathegoria inferior dos primates. Á queda succedeu a rehabilitação, como ao occaso a nova aurora de luz. Era a lei eterna das antitheses. Foi o trabalho o signal da rehabilitação, será o caminho para a apotheose. Sic itur ad astra. Nos mythos do Oriente, tenebrosos e tragicos, o trabalho é um stigma que pésa sobre o homem, é a dor, a atribulação, é a terra produzindo cardos e espinhos, fecundada pelo suor do seu rosto. É o enigma da vida a ser iniciado pelo soffrimento e o soffrimento a retratar a vida nomada da raça primitiva, na sua passagem através do dezerto. Nos mythos do Occidente é sublime o ideal do trabalho: ahi é a gloria dos semi-deuses, é a vida errante mas heroica. Chiron ensina o mysterio da força. Os trabalhos de Hercules, os trabalhos de Theseu, eis outros tantos passos para a elevação do homem, perdidos hoje completamente nas sombras imperscrutaveis do mytho. Nos trabalhos de Jason e dos Argonautas está{52} symbolisada a inauguração do commercio de toda a raça jonica. No Oriente, o trabalho é uma fatalidade religiosa, um anathema do primeiro passo do homem. O christianismo, creado no berço de todas as religiões, vindo da Asia, transportou comsigo o mesmo dogma fatidico, mas com expiação. Suavisou o golpe da espada flammejante, que lançou o homem fóra do Eden. Exagerou a culpa para perdoar o castigo; suscitou no interior do homem uma luta, luta escura e tremenda, um eu a combater outro eu, a carne a revoltar-se contra o espirito, a confusão e o cahos onde havia a ordem e a harmonia, e para este dualismo desesperado apontou como panacêa—o trabalho. D'esta idéa proveiu um diluvio de sangue para rehabilitar a raça futura; foi o sangue dos martyres; a arca fluctuante a egreja; o ramo de oliveira, representando a paz universal e a fraternidade a cruz. Só tarde estes symbolos foram comprehendidos; tinham sido como o enigma da Sphinge, que devorava os que iam passando. O christianismo ao ideal do trabalho-pena ligou a universalidade. Na Edade média a ordem social era classificada pela propriedade territorial; a posse era a caracteristica do senhor, o trabalho da cultura o ferrete do servo. A Edade média feudal é uma antinomia na historia; a influencia manifesta do christianismo é a communa. O abraço dos povos pelo trabalho do commercio e da industria, eis o segredo das riquezas de Pisa, Gand, Veneza, Genova, Bruges e Florença, ao pé da barbarie dos{53} estados feudaes. Virtus unita fortius agit. No dia em que o homem descobriu a alavanca, o parafuso, a força da agua, foram outras tantas fadigas de que aliviou seus hombros, sobrecarregando-as na natureza. Hoje o trabalho não é o sello da culpa segundo a antiguidade biblica, não é o signal da escravidão como na Edade média, nem o tributo dos párias, como concebia Aristoteles: hoje é o symbolo da dignidade do homem. São as machinas que vão conseguindo pouco a pouco esta realeza do homem sobre o universo. O hymno do trabalho eleva-se por toda a parte, e as strophes perpetuam-se ao estrepito das grandes descobertas de Galvani, Fulton, Watt, Pascal. Pelas machinas ganha o homem tempo á custa da força, mas força dispendida pela natureza. Virá uma epoca em que elle se liberte do trabalho material; abre-se então outro horisonte mais vasto—o trabalho da intelligencia. Prometheu ergue-se dos rochedos caucasicos, não para roubar o fogo celeste, porque é Deos, mas para atear aquelle que occultou longo tempo no encéphalo. O homem desprender-se-ha da animalidade para absorver-se no anjo. Se elle se destacou de uma animalidade inferior, não está terminada a sua progressão ascencional. Esta theoria explica já a prodigiosa actividade e precocidade intellectual d'este seculo.»

A voz foi-se-lhe enfraquecendo, até que se calou; estava macilento, tiritando de frio; a vista com um brilho phosphorecente, felino. Depois de{54} alguns instantes de silencio, disse-me com um modo secco, que não comprehendi logo:

—O succo gastrico é bastante corrosivo e dilacera-me as fibras do estomago.

Conheci que era a fome que lhe dava esse aspecto, essa consumpção em que o via prostrar-se. Disse-lhe que esperasse um instante, e sai á pressa para comprar em uma espelunca uma posta de peixe. Quando voltei, a luz bruxuleava quasi a extinguir-se; o pobre rapaz estava voltado para a parede. Sacudi-o. Achei-o frio, com a rigidez cadaverica.{55}

Beijos por facadas

(CONTO DE UMA SERENADA EM HESPANHA)