O Director espiritual da desditosa Hernanda, descrevendo-lhe o amor divino, isempto da zelotypia das paixões do mundo, não tendo a alma candida de nenhum d'esses apaixonados e santos poetas, presentira, dois seculos antes, a theoria ascetica de Molinos. Tinha em vista matar o peccado pelo peccado. Era impossivel já. Hernanda pairava em espirito pelo empyreo; sua{110} alma pura abysmara-se na immensidade do fóco de todo o amor. O extasis em Hernanda, originado pelo fervor piedoso, era o entorpecimento dos sentidos, um scismar indolente á cadencia dos inefaveis concertos das cytharas dos cherubins.

Então o Director de consciencia descobriu uma nova tortura para flagellal-a; tinha um prazer infernal em tornar-lhe lento o soffrimento. Elle mostrava-lhe que era o extasis o mais alto favor do céo concedido aos seus eleitos, e descobria ao mesmo tempo como isso era para todos os grandes santos uma provação difficil, pelo terror dos proprios merecimentos. Sam Paulo, o que melhor revelou nos seus escriptos o espirito do christianismo, na Epistola segunda aos Corynthios, fala d'este terror.

N'aquella virgindade timida da alma, o corpo foi caindo em inanição; tinha uma immobilidade beatifica. Apesar de todos os flagicios e macerações, o rosto conservava ainda a frescura da rosa entreaberta, rociada pelo orvalho matutino. No passamento das virgens, sereno como o declinar de uma aurora vespertina de primavera, Jesus visitava as suas desposadas, como referem os legendarios. Hernanda abrazára-se no amor ardente do céo; o vacuo absorvera-lhe o derradeiro alento e sua alma soltou-se na ancia do infinito. Alta noite, sentiram-se umas harmonias transbordando em enchentes do orgão do mosteiro; era uma musica indisivel, nunca ouvida na terra. Foram vêr; ninguem percorria o teclado.{111} Melodias suavissimas e remotas derramavam-se da cella de Hernanda. Entraram. Respiravam-se perfumes aérios em torno d'ella. Um sorriso diaphano, angelico, lhe ficára nos labios desbotados, como a ultima vibração de uma harpa que se quebrara; parecia a incarnação de um sonho melifluo das harmonias de Palestrina.

II

Desde o romper d'alva, que os sinos da Cathedral eccoavam clangorosos n'um dobre funerario; o povo agitava-se inquieto pelas ruas, como na impaciencia de uma grande festa. Era o dia de um Auto de Fé em Hespanha, uma solemnidade extraordinaria, com que se celebrava e honrava a coroação dos reis, o nascimento do herdeiro presumptivo, e a sua maioridade; era o grande drama judiciario da velha jurisprudencia theocratica revestido dos horrores do symbolo, mesclado de sangue derramado pelo fanatismo e prepotencia monachal. A procissão vinha coleando ao longe, com uma gravidade funebre, misturada de risos do rapazio que tudo parodía. Por todas as janellas negrejavam cabeças, donzellas engraçadas, contentes, distraidas com a festividade apparatosa. Á frente das confrarias e irmandades, os carvoeiros traziam a lenha para a fogueira, imitando o passo da Escriptura, em que Isaac caminhava{112} para a montanha do sacrificio. Seguiam-se em filas extensas os frades dominicanos, arvorada na frente a cruz branca, e o bolsão inquisitorial de damasco vermelho do duque de Medina Celli. Os penitenciados vinham vestidos de um modo irrisorio e grotesco, descalços, cobertos de um sambenito, com um chapeu afunilado, com figuras cabalisticas, diabos, labaredas e caveiras pintadas.

A multidão pavida e credula, sentia aquella grande contradição do coração humano, apupava os miseraveis que interiormente a commoviam e lhe arrancavam lagrimas de compaixão. Chegados proximo do estrado real, o Inquisidor geral veiu receber o juramento da extirpação das heresias. Os brandões crepitavam nas mãos dos condemnados; tornavam mais lugubre o momento. Depois viu-se levantar uma figura macilenta, a cabeça encoberta no capuz, cruzadas as mãos sobre o peito em que tinha repousado um crucifixo, o mesmo que um dia apresentára diante dos reis catholicos Fernando e Izabel, dizendo-lhes que—o vendessem por trinta dinheiros, já que se queriam tornar menos rigorosos contra os judeus. Era o prégador frei Pedro. A voz taurina fazia estremecer as turbas, representando-lhes ao vivo, nos esgares e visagens que fazia, os terrores das penas do inferno. A multidão estava suspensa ante as vociferações sangrentas do dominicano.

—Sabes... (disse um desconhecido para um cavalleiro ainda novo, que estava attento) não o conheces?{113}

O outro respondeu-lhe em voz baixa, de um modo quasi imperceptivel:

—Ah, és tu, Diego Ortis? Bem o conheço pela fama de seu nome. É Pedro de Arbués.

E não te sentes possuido de raiva ao pronunciar esse nome de um hypocrita e assassino?