Conhecera que morria:—«Sabes, disse ella tomando-lhe uma das mãos, eu deixo a vida, mas custa-me baixar á frieza do sepulchro sem te dizer uma palavra. Oh! nem sei como revelar-te esse segredo, esse desvario de uma paixão infantil. Não soube guardar a fidelidade do thalamo.» O marido ouviu a confidencia solemne com um ár estupido de imbecilidade:—És n'este momento tão generosa e grande! A verdade nos teus labios vibra-me de um modo que tudo te perdôo. Choras? escuta. Deixa tambem fazer-te uma revelação tremenda: envenenei-te.
Hoffmann não pôde tirar do conto a moralidade que se espera, e caiu, esquecido do mundo, entre os toneis do seu amigo.{127}
Revelação de um caracter
Como eu, elle tambem vivia ignorado, ocioso, distraído, fumando sempre, debruçado de uma janella que deitava sobre o mar. Passava horas esquecidas assim, a contemplar as ondas no seu eterno refluxo, imagem dos pensamentos reconditos, das aspirações impossiveis, que tempestuavam na solidão de sua alma. Muitas vezes me disse elle, quando a indiscrição da amisade o ia interromper do quietismo contemplativo que o absorvia, e lhe perguntava que idéas mysteriosas o afastavam para tão longe da realidade e da vida:
—Se fosse possivel exprimir, stenographar na palavra tudo o que se revolve na mente, o homem mais sabio pareceria um tolo; se fossem coerciveis todos os sentimentos, que passam e succedem{128} no coração, o homem mais santo e simples apparecer-nos-hia com a hediondez da infamia.
E continuava, embebido n'um scismar indefinivel, extranho a tudo o que se passava em volta d'elle, como na reconcentração de um grande desgosto. Outras vezes mostrava uma alegria irrepressivel, impaciente, louca, sem motivo; mas cada riso era o preludio de imprecações e ironias pungentes, que vibrava dos labios acerados: o enunciado breve e incisivo d'uma grande verdade, mas triste, horrenda, incrivel, e infelizmente verdadeira, que a sua lucidez de doente descobria. Não sei qual o torturára primeiro, se a duvida ou o sarcasmo. Elle submettia á analyse fria os sentimentos mais puros e intimos, volatilisava-os pelos processos de uma dialectica irretorquivel, e por fim o ultimo canon da sua logica era uma gargalhada irritante que fazia gelar de medo. Elle mesmo se doía de sua crueldade, era o primeiro a accusar-se e a procurar corrigir-se. As linhas de sua physionomia davam-lhe ao semblante uma fórma angulosa, de energia; o olhar incerto não repousava, como quem observa nas sombras de um abysmo insondavel, nunca o fitava, temendo talvez que lhe surprehendessem na expressão fugitiva que o animava o ridiculo, que sabia admiravelmente descobrir.
Deixei de procural-o longo tempo; repugnava-me aquelle caracter incomprehensivel; para monomaniaco era insupportavel, para excentricidade despresivel. As contradições tornavam-no absurdo.{129} Custava-me vel-o na consumpção d'essa apathia, criança e foragido do mundo, sem ter a commoção dos grandes sentimentos que nos prendem á vida, e que são o conforto nas horas vagarosas do desalento. De uma vez encontrei-o a ler com uma voracidade, como a de Isaías ao revolver as paginas dos arcanos imperscrutaveis. Procurei vêr se a sua imaginação viva o tornava illuminado, se era a consciencia da segunda vista, da percepção immediata que o tornava ocioso e inerte:
—O que lês? Que livro é esse que um dia te prendeu a attenção inconciliavel?
—Uma terrivel obra prima, uma perigosissima e espantosa maravilha de arte! É um romance de Diderot, que contém em si o germen de uma revolução moral, o Neveu de Rameau. Nunca o leste? É impossivel observar mais profundamente o coração do homem, isolar-lhe os sentimentos e reproduzil-os em uma creação mais brilhante. Somos todos como elle. Rameau é a grande contradicção da nossa natureza, com a differença que obra segundo essa força, não se contrafaz pelas conveniencias da sociedade, obedece-lhe fatalmente, e é por isso que horrorisa; as maximas do cynismo mais revoltante e abjecto, as doutrinas mais subversivas de toda a ordem, vêm-lhe no dialogo animado, seguidas de sentimentos purissimos, intenções boas e justas, de um modo abrupto, que espanta. Os seus paradoxos são os da humanidade, com a differença que{130} a educação os abafa no intimo de nossa consciencia, e elle, o parasita, o musico, o bandido, o desgraçado Rameau, tem a infelicidade de pensar alto; deixa vêr, através da sua ingenuidade, todas as paixões despertadas por desenfreados instinctos, que existem egualmente em nós, mas que os refreamos e os detestamos, como se fossem a degradação nos outros. Este livro é a synthese da philosophia do seculo XVIII; ella avançou principios de uma verdade inconcussa, de rasão profunda, a rasão universal, de todos os tempos, mas que foram combatidos e ainda hoje não são completamente admissiveis, por esta maldita necessidade de transigirmos com as conveniencias.
Esquecera-se n'aquelle dia do habitual silencio; fallava com uma verbosidade febril; observações penetrantissimas, rasgos de uma intuição pasmosa lampejavam brilhantes, no decurso da conversação. Expressando-se sempre com difficuldade, então, jorravam-lhe as palavras faceis e promptas, com uma nitidez que acompanhava as mais delicadas analyses.