E começou a assoviar uma ária caprichosa, passeiando vagarosamente; depois voltou-se para mim:

—Ha ainda que descobrir na musica; falta-lhe realisar o principio da ironia, como ha em todas as fórmas particulares da arte. A poesia tem a satyra; a pintura a caricatura e o grotesco; só a musica precisa attingir a antithese do pathetico. O pathetico e a ironia são os dois polos de toda a evolução esthetica. Todas as creações na arte sáem d'estas duas paixões oppostas. Uma é o natural, a outra é o não natural como natural; uma sustenta o sublime, a outra o ridiculo. Ao pathetico eleva-se todo o que soffre; só o riso é a força das grandes individualidades. Ri-te de tudo; o riso denota sempre uma superioridade.

Não o comprehendia; o seu riso pungente de ironia desarmava-me. O genio é uma nevrose, uma disformidade; o que nos outros me parecia egoismo, n'elle não sabia como chamar-lhe. Para elle a gratidão era a justificação do servilismo; o sentimento religioso uma tradição da ignorancia primitiva; o amor de mãe uma impertinencia, que só se dá entre os animaes da classe dos mamiferos, pela conversão do habito em instincto. Explicava tudo assim. Parecia uma alma devastada por longas abstracções, que andava errante no mundo, á busca de uma formula impossivel. A analyse continua dava-lhe uma certa malvadez, tornava-o intratavel.

O caracter faz-se. Quaes seriam as circumstancias{137} que o transformaram até áquelle ponto? Indagava-o como um problema interessante. Fui por deducções pequeninas. Muitas vezes me fallava elle da harmonia plastica das fórmas. Contou-me uma historia original: uma menina engraçada, cuja belleza realçava com uns dentes alvissimos de jaspe; a vaidade de mostral-os tornara-a jovial. Infelizmente tropeçou em uma escada e quebrou um dente. Perdera o seu melhor encanto. D'ahi em diante, procurando encobrir esse defeito, tornou-se taciturna, melancholica, apprehensiva, até que se foi definhando e morreu de desgosto. Contava-me isto como uma grande verdade, como doutrina que professava. Admirava o costume de Sparta, que mandava despenhar de uma rocha as crianças disformes. Pobre rapaz! Como uma circumstancia pequenissima lhe influiu no caracter e na existencia. Elle era aleijado de um pé, como Byron, e era este o seu desgosto intimo, que o trazia solitario e o tornava aggressivo, porque se via amarrado a um ridiculo.{138}
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O sonho de Esmeralda

Oh! meu amigo, oh! meu poeta, tu não sabes o que é um rapaz que sáe aos vinte annos da sua agua furtada, sem conhecer o mundo, ignorando a vida, tendo vivido alimentado por sonhos impossiveis, rico de todas as leituras, levado por ambições altivas, que o fazem grande, sentindo muito, amando tudo, e que o acaso atira ao meio de uma cidade opulenta, onde ninguem se conhece, onde todos se egualam e atropellam! Foi quando comprehendi aquelle tercetto de Dante, de uma profundesa nocturna, que me abysmava, cada vez que o repetia na mente:

No meio do caminho d'esta vida
Dei por mim na amplidão de selva escura,
Pois que a vereda certa era perdida.

Não sabes como o ruido de uma cidade immensa, o dédalo das ruas, a extranhesa e indifferença{140} dos que passavam, me tornava solitario no meio das multidões. Tantas vozes perdidas no ár, e nenhuma para mim! Tantos braços cahidos com desdem, e sem nenhum me estreitar a si. Parecia-me o tumulto como um naufragio em que a ancia do salvamento nos torna egoistas, insensiveis para as agonias dos outros.

Todas as aspirações que me fizeram deixar o retiro benigno onde me voaram os primeiros annos, mostrando-me o mundo como uma grande festa, que me despertaram o desejo de ser tambem um dia conviva, iam-se apagando, abandonavam-me como no encontro fortuito de um desconhecido. Sentia-me pequeno, incapaz de luctar, de me impôr a admiração dos outros.

O que teria sido de mim nas horas monotonas do desalento, nos longos dias do desamparo, se não fôra a poesia! Até então tinha ella sido um folguedo, um brinco infantil, innocente, um vagido timido e suave da alma, que anceava a luz, como uma borboleta prateada antes de romper a chrysalida nocturna. Sem ter quem me fallasse, pedi á poesia os seus antigos carinhos, um alento de esperanças, um orvalho para refrescar a aridez do dezerto em que me via. Ella, a irmã dos tristes, a alma dos que soffrem, como veiu terna, espontanea, compassiva para consolar-me! Cantava, como uma criança, quando tem medo e procura esvaecer os vultos caprichosos que lhe voejam na phantasia. Foi a poesia tambem que salvou o desgraçado Jacopone, quando, abalado{141} pelos desastres da vida, errando pelas ruas desvairado e doido, apupado da plebe, perseguido, veiu bater ás portas de um mosteiro, d'onde egualmente o repelliam. Foi ella que lhe deu a paz da cella e a serenidade da contemplação.