Sentia-me escorregar lentamente para o precipicio; a paixão dava-me uma lucidez com que explicava a loucura e a justificava diante da consciencia que me accusava de instinctos baixos, sem dignidade. Apparecia-me á janella todas as tardes; sentava-se ali e costurava. Tinha um orgulho indizivel ao lembrar-me que, de entre todo aquelle bulicio de gente desconhecida, havia uma mulher que pensava em mim e me estava esperando. O amor tornava-me timido; queria fallar-lhe e não sabia. Pedi então á poesia que fallasse por mim.

Para um amor puro, ethereo, que se esconde e não se atreve a declarar-se, nada o exprime melhor no seu vago ideal do que um soneto. Estudei esta fórma, a mais completa das fórmas lyricas. Elevado como a ode, melifluo e simples como o madrigal, sentencioso como o epigramma, é a synthese de todas as fórmas do lyrismo. Como{147} o não desenvolveu o genio da Italia, nas suas elevações erotico-mysticas! Nas duas primeiras strophes do soneto, o sentimento revela-se pela imagem, occulta-se sob ella como indefinido, intangivel; o predominio da imagem tem a quadra, fórma livre para as representações do mundo exterior. Depois é que o sentimento se mostra no seu esplendor absorvendo em si todas as potencias da alma; é o terceto que o traduz, a triade fatidica, que se imprime mysteriosamente em todos os factos do espirito. Do accordo entre a imagem e o sentimento, provém a diversidade das fórmas poeticas. Se a imagem se mostra na sua complexidade finita, a poesia tem um caracter didactico e descriptivo; se o sentimento se sobreeleva á imagem e se manifesta na sua subjectividade, eis o lyrismo puro. É por isso que o soneto é a fórma suprema do lyrismo. Santificaram-n'o Dante, no retrato do amor ideal, na Vita Nuova; Petrarcha, exaltando o amor religioso de Laura na solidão de Vauclusa; Miguel Angelo, esse Protheu que encarna todas as fórmas do bello, e Vittoria Colonna, confidenciando ambos com os sonhos da arte, de um modo que ninguem macularia o seu platonismo radiante. É tambem nos sonetos religiosos de Lope de Vega, que se conhece a profundidade de sua alma sensivel, e nos de Camões, que se aspira o perfume da saudade de seus mallogrados amores.

Esquecia-me a dissertar sobre o soneto para evitar o ridiculo de ter assim cantado esse desvario.{148} Eu a via todas as tardes á janella; tinha a seu lado um passarinho, que saltitava, chilreando contente, para quem fallava, dizendo o que queria que eu ouvisse. Como não perceberia elle estes segredos de amor, quando o estava embalando com o seu cantar soffrego, tremente. De uma vez atirei para dentro da janella este soneto traduzido do hespanhol de Lope de Vega. Não ha expressões humanas que possam dizer mais:

Dava alimento a um passarinho um dia
Lucinda, e pela estreita portinhola
Foi-se-lhe a ave das grades da gaiola
Ao vento livre, onde a cantar vivia.

Entre-rindo, a mãosinha ella estendia
Para o suster; na dor que a desconsola,
Diz (pois como a vergontea se estiola
Sem luz, sua face a pallidez tingia):

«Para onde vás? e deixas este ninho
«Que de frouxel teceu a doce amiga,
«Que a brincar com o teu bico se enamora?»

Ouviu-a enternecido o passarinho,
Bate as azas para a prisão antiga,
Que tanto póde uma mulher que chora.

O que haverá na poesia antiga que exceda este primor? Quem soube idealisar assim uma lagrima? Comprehenderia ella a profundidade d'este sentimento? E sorria-se de cada vez que lhe enviava{149} novas confidencias, mas do mesmo modo que sorria para todos. Para todos! Sempre esta idéa infernal a envenenar-me todas as horas da vida. O poder das lagrimas que lhe descobri, a fraqueza que vence todas as forças, não tinha esse mysterio, quando as derramei ao vêr-me nú, abandonado pela esperança fagueira, que fugira como o passarinho de Lucinda. Disseram-me... nem eu sei o que me disseram. Fôra a mãe, a mesma que a susteve nos joelhos quando a atirou á vida e a amamentou com seu leite, quem a arrojou á perdição. Quem havia de adivinhar que sob um ár de candura, que a cercava de uma auréola divina, vergava uma alma oppressa pelos insultos dos que lhe pagavam! O que é uma cidade grande! Não se devoram com os horrores da anthropophagia, mas a vida vae continuamente alimentando-se da vida. Não sei, não posso contar-te tudo.»


Um anno depois encontrámo-nos; o pobre rapaz estava possuido novamente da paixão dos livros. Era uma anciedade de saber, não menos funesta, que o amputava para todos os gosos da vida. Não me atrevia a fallar no antigo amor; tinha medo de acordar-lhe as agonias que estariam talvez já adormecidas. De uma vez, estavamos juntos, vi passar a distancia uma rapariga,{150} um typo raphaelico de candura; ia seguida por uma mulher velha e tropega. Era uma antithese que fazia pensar muito. Elle olhou-a e foi acompanhando-a com a vista, com certa anciedade; depois, como refreado pela reflexão, olhou para mim envergonhado, córou e disse, procurando esconder esta impressão repentina:

—É ella.

Não comprehendi immediatamente; fui barbaro, pedindo que me explicasse o mysterio d'essas palavras intercortadas. Elle apenas pôde proferir uma, mas que era o resumo de todas as dores e decepções, da compaixão que ainda sentia, do ideal a que tinha aspirado, da fatalidade a que tinha succumbido. Olhou-a, ella já ia longe; depois que a viu desapparecer, disse, contemplando ainda e com a voz a apagar-se:

—Uma ruina!{151}