Quantas vezes não passou pela cabeça da desalmada visinha amparal-a até á edade em que pudesse auferir um lucro criminoso d'aquella formosura angelica. Belleza funesta que vem accumular a desgraça á indigencia, dar uma côr mais sinistra á miseria. Tinha sete annos apenas! custava tanto esperar. Lembrou-se então a visinha—uma idéa luminosa que a livrou de escrupulos de consciencia e lhe asserenou o animo alvoroçado por uma caridade que a sorte lhe impuzera—a criança tinha ainda um avô do lado materno, feitor de uma rica propriedade. Era a algumas legoas de distancia; em um domingo, depois da missa da madrugada, poz-se a caminho com a pequena e foi entregal-a ao avô.
Nada mais commovente do que a infancia e a velhice quando se amam e se comprehendem; tem ambas uma frescura juvenil, o frescor dos orvalhos doirados da alvorada e da geada nocturna, a luz e sombra formando um brando crepusculo em que se scisma sonhando alegrias por vir e illusões que não tornam.
Não se descreve a loucura de jubilo que o velho sentiu ao vêr a criança, carne da sua carne, uma parte da sua alma, que reflorescia viçosa no engraçado renovo. Ria, chorava no seu transporte, doudo, doudo de contente ao beijal-a. Fitava-a,{155} esquecia-se a vêr-se n'aquelle retrato, a menina dos seus olhos, como lhe chamava quando os soluços lhe não embargavam a voz.
—Eu não podia morrer, sair d'este mundo, sem te vêr, minha filha! Tu bem sabias isto; foram os anjos que t'o disseram, por isso quizeste vir. Trazes-me o dia mais alegre da minha vida. Quando tua mãe nasceu foi n'um dia como este, e eu não me alegrei tanto; não me lembrava que uma filha é o melhor encanto da velhice! Estava longe da minha aldêa, muito longe, andava na guerra havia quasi um anno, e ainda não era bem um que estava casado. Quando voltei, já tua avó e tua mãe tinham morrido. Não te importam estas cousas! Tu queres brincar? Vae correr, anda á tua vontade. Como ella é tão bonita! Eu choro sem saber porquê! Tinha pedido tantas vezes ao pae que a trouxesse cá um dia. Eu não devo deixal-a ir; ella é minha agora.
Quando o velho soube que a criancinha estava completamente orphã no mundo, deu graças ao céo por lhe havêr poupado a vida de tantos riscos que atravessára. Julgava-se o roble secular que protege o arbusto flexivel, quando as rajadas retouçam na floresta. Queria penetrar os designios da providencia, que o destinára no declinar dos annos para a guarda d'este thesouro de candura.
O velho, á noite, sentava-a sobre os joelhos, fallava como a uma pessoa desenvolvida, contava-lhe historias do passado, até que adormecia, e{156} se esquecia vellando ao pé d'ella, horas inteiras. O que lhe não contaria o velho na sua simplicidade de justo? Mutilado como estava das longas batalhas em que entrára, perguntava-lhe a criança a historia de cada cicatriz. Ella nunca vira estas disformidades nas outras pessoas e tinha medo; o velho distraía-se de continuo pintando-lhe os recontros, as contraminas, as cargas; ás vezes não fallava para ella, fallava comsigo, vehemente, exaltado, por fim ria-se de si, e acabava por beijal-a muito. Isto repetido quasi sempre ao fim da tarde, quando o sol dardejava na aresta da montanha, e vinha de longe a toada dolorida e plangente da sineta de uma freguezia proxima.
A apparencia do velho infundia consolação; a falta de dentes dera-lhe uma disposição aos beiços desbotados de modo que parecia ter sempre um riso de mofa, inoffensivo, divertido, communicativo. Sobretudo, o que era mais sympathico na sua fealdade eram uns olhos, de pequenos, tão alegres e vivos, que pulavam, como no vigor da edade e das paixões, em umas orbitas encovadas, maceradas pela senectude. As cicatrizes das ballas e espadagadas, misturando-se com as rugas da velhice, em vez de o tornarem repulsivo, davam-lhe um aspecto attrahente, em que o bom humor que o animava deixava reflectir um fundo de bondade, que tem quasi sempre as pessoas que soffreram bastante.
E quanto não tinha elle soffrido? Noivo, casado de um anno, viu-se forçado a abandonar seu lar,{157} deixar a roupa de camponeo pela farda apertada, a choça pela caserna, o nome por um numero, o leito fresco, cheiroso com roupas de linho, pela tarimba, e sobretudo a vida sanctificada da familia que acabava de formar em roda de si, pela guerra em que se ia confundir.
Fôra no tempo da guerra peninsular. Uma estrella funesta o acompanhou sempre, amparando-lhe a vida para soffrimentos inauditos. Nunca entrou em acção d'onde não voltasse ferido; todos galardoados sempre, d'elle ninguem se lembrava! A jovialidade dava-lhe forças para resistir á oppressão da injustiça. De uma vez levaram-lhe os dedos quasi todos, porque em uma carga de cavallaria teve de fazer das mãos capacete. Retalhado, calcado aos pés do esquadrão, ainda ali a sorte acintosa o guardou para novas provações. O pobre soldado não sabia queixar-se; por fim como não pudesse dar ao gatilho, passaram-no para a artilheria.
Ahi subiu de ponto a sua infelicidade. Em uma investida a peça que descarregava esteve quasi nas mãos do inimigo; era um magnifico apresamento. Exasperado de raiva encravou-lhe o busil, para não fazer mais fogo. Depois, que a levassem os contrarios! N'isto o pelotão foi distrahido para outro lado. Julgaram então o misero soldado traidor aos seus, e descarregou-lhe o general um golpe que o estendeu por terra. Em uma nova investida dos contrarios conheceram a prudencia do artilheiro, mas deixaram-no estendido por{158} morto; as carretas passaram por sobre elle e fracturaram-lhe as pernas. Pediu debalde aos inimigos, que iam de avançada, que o acabassem de matar. Ninguem o ouviu, com o estrepito das descargas e do rodar dos trens, o ruido da cavallaria e o ecco dos clarins. Depois da batalha, quando iam atiral-o á valla, pediu que lhe poupassem a vida. Doeram-se d'elle e levaram-no.