E quem seria essa pessoa, a primeira que soube arrancar uma lagrima d'estes olhos tão puros e meigos? Maior que todos os poetas, mais do que Deus talvez, quem soube dar fórma ao sentimento d'aquelle coração virginal em uma gota de agua, uma lagrima caida, irmã gemea das que os anjos andam pelo mundo aparando em suas urnas crystalinas, para as engastarem como estrellas da noite saudosa no vacuo do firmamento. E ella cantava:
O coração e os olhos
São dois amantes leaes,
Quando o coração tem pena,
Logo os olhos dão signaes.
Ella espalhava ao vento os seus pezares, mas ninguem os percebia; o avô alegrava-se ao vêl-a sempre entrar em casa cantando; mal sabia que a harmonia sonorosa era o ruido de uma grande tormenta. A pobre criança soffria muito, amava! Ha na vida do coração um momento em que todas as emoções, impulsos e sentimentos se alevantam a um tempo, e vão apoz o primeiro que os acorda. São como os perfumes derramados pela primeira brisa que chega. É como um estado nascente da paixão.
Don Juan sabia por certo este segredo, conhecia o momento em que todas as mulheres se perdem, porque se dão ao primeiro que apparece.
Nem ella conhecia porque amava, nem tampouco o impossivel que se erguia entre o seu{161} amor e o nascimento desegual d'aquelle que a endoudecera com as palavras balbuciadas tremendo. Amava o filho do antigo amigo de seu avô, dono da herdade em que habitava; estupido, uma d'essas almas boçaes, nascidas para deturparem tudo, porque não vêem, nem sonham senão o mal, mesmo no instante em que a linguagem mais intima da candura vem affagar-lhes o deserto em que o seu egoismo as esconde. Demais, elle tinha esta regularidade de feições, de uma monotonia que enfada, chata, insignificativa, mas que dizia bem com a alma que o animava, incapaz de qualquer acto generoso, de instinctos vis, mas julgando-se digno de todos os respeitos diante da sociedade. Tanto mais criminoso parecia, quanto era ainda novo, tambem criança, em quem se espera a ingenuidade dos primeiros annos que tudo perdôa.
Aquelle que a innocente rapariga amava, não pensava senão em perdel-a. Era tão facil! Estava desprevenida, não via a traição da onça refalsada, onde esperava uma attracção irresistivel! Mal haja quem não falla verdade n'este episodio mais santo e verdadeiro de toda a existencia.
A pobre pequena não sabia estas subtilezas do peccado; foi apoz os seus sentimentos, deixou-se adormecer ao som da voz que a illudia, para acordar com a gargalhada fria e insultante no fundo de um abysmo onde fôra atirada para sempre. A alegria que até ali tivera, e era a sua principal belleza, perdeu-a com a innocencia.{162}
Ja não cantava; andava silenciosa, desolada, como na afflicção de uma dôr que se não exprime. A unica pessoa que a amára verdadeiramente no mundo, seu avô, não tinha alma para perguntar-lhe o que a trazia assim oppressa.
Ella envergonhava-se das lagrimas, represava-as, bebia-as! Uma vez, pela volta das trindades, o velho voltava do trabalho; pousou a enxada ao canto da choça. Sentaram-se á mesa frugal; não comiam, preoccupados por uma angustia que se não atreviam a confessar um ao outro.
A final o avô perguntou-lhe com uma doçura inexcedivel: