—É irresponsavel pelo passado.

—Não comprehendo!—Retorquiu a condessa fitando a mascara, procurando em vão surprehender debaixo d'ella quem seria capaz de fallar assim. Um mixto de terror e de curiosidade embaraçava-a, não sabia o que devia fazer. Depois{176} de alguns instantes de silencio, disse quasi em lagrimas:—Tenho medo de si! Oh dê-me essa flôr.

—Nunca!

—Exijo!—tornou a condessa com a voz sumida, sentindo-se dominada pela fascinação do desconhecido.

—Aqui está a rosa,—disse o mascara tirando do seio a flôr quasi murcha.—É impossivel entregal-a. Eu posso exigir mais em paga d'ella. Posso exigir tudo! É uma promessa inviolavel como o juramento. Um dia a mulher que eu amava, no extremo de sua vertigem e loucura por mim, prometteu ir até onde eu estivesse, e ahi entregar-se-me, se soubesse que eu tinha a vida contada por instantes, e havia de saír d'este mundo sem abraçal-a ao menos uma só vez como minha. Os desgostos têm-me devorado lentamente a existencia; presinto a cada instante em mim a frieza do sepulchro, e não soube ainda erguer a voz e reclamar a promessa fatal. Nem eu a quero! Bastou-me ouvil-a para antecipar no mundo todas as venturas do empyreo. Deseja a rosa ainda?

—O senhor dilacera-me!—volveu a condessa com a voz dorida, e com uma delicadeza inexcedivel.

—Se a flôr que deixou cair está cheia de espinhos! Não me atrevo a entregal-a. Dou pela rosa a unica idéa que me podia fazer persuadir que ainda vivo! É uma troca generosa! Acceita? Um dia a mulher que eu amava, conheceu a desegualdade{177} da nossa posição, disse-me, de um modo que só ella saberia dizer sem macular a ingenuidade de sua candura:—«Se me violentarem a casar com outro, tens direito a reclamar quando quizeres o meu amor!» Seria uma infamia vir lembrar-lhe uma palavra proferida no momento mais exaltado da paixão, para perdel-a por um capricho. Não vale essa promessa. Agora ainda quer a flôr?

—Oh, não! não!—accudiu a condessa represando as lagrimas que lhe inundavam os olhos scintillantes.—Eu não sei o que quero agora! Ninguem podia fallar-me assim a não ser... Fale-me, eu estou conhecendo esta voz! É impossivel que não seja! Não sabe como é horrivel esta incerteza. Não o julgo capaz de atraiçoar-me! Erga uma ponta da mascara, deixe-me vêl-o, a mim só, e fico descansada.

—Eu não podia atraiçoal-a, nem mentir-lhe. Sou quem imagina; vim para vêl-a pela ultima vez, porque me sinto acabar; estão contados os dias da minha vida; passo com as folhas d'este inverno. Bem o conheço, e resigno-me. Não pensei que o primeiro amor que se tem na vida poderia ser tão funesto.

—Oh, não falle assim, que me mata! Eu tenho remorsos de não ter luctado mais tempo; não tive culpa; minha familia quiz a minha infelicidade. Eu amo-o porque não sabe accusar-me. Quero vêl-o! já que não é possivel mais. Tire por um instante a mascara. É o que ouso pedir-lhe.{178}