—Medo das balas? Isso são confeitos de noivado. Não tivesse eu cá os meus setenta e quatro, que outro gallo cantaria.

—O seu filho, vê-o d'ahi?

—Por ora ainda o vejo. Não estou aqui por ter medo de perdel-o; é para ir socegar as mulheres, as irmãs, que sempre estão com cuidado. Querem saber alguma cousa das linhas.

Este dialogo foi interrompido por um toque de carga á baioneta; pode-se imaginar quem trouxe para a cidade a noticia do triumpho. Chegou o terrivel dia 24 de maio; estava acabado de construir o reducto das Antas, guardado apenas por trinta soldados de caçadores 5. N'isto, as tropas inimigas, de dois mil homens, tomaram o reducto das Antas! Era preciso desapossal-as, a todo o transe, e de facto não poderam conservar o{197} reducto além das tres horas da tarde desse dia. Infanteria tres, nove e dez, quarenta lanceiros e um batalhão inglez cumpriram o seu dever; foi uma refrega atroz. O Monte das Antas ficou juncado de cadaveres; mais adiante, na Casa Negra, era ainda maior a carnificina.

Foi no combate da retomada das Antas que D. Pedro tornou a encontrar o velho burguez; já lhe haviam dito como se chamava. Era o contraste do ouro, o typo do antigo homem bom, chão e abonado, como o caracterisa a Ordenação do reino; chamava-se Cosme Martins. Assim que D. Pedro deu por elle no tropel, destacou-se dos officiaes, para fallar-lhe:

—Outra vez por aqui, com este fogo?

—Tenho cá outro filho.

—Outro filho? Como se chamam os rapazes?

—Na bateria da Luz está o meu Eduardo, tem dezenove annos feitos.

—Póde bem com a espingarda. E o outro?