Tambem no livro De varietate rerum descreve Jeronymo Cardan a faculdade que tinha de experimentar o extasis espontaneo, e de tornar objectivas as imagens creadas na sua mente: «Quando eu quero, vejo o que me apraz, e isto não só com o espirito, mas com os olhos, com essas{8} imagens que eu via na minha infancia. Mas agora creio que ellas são o resultado de minhas occupações. É certo que nem sempre possúo esta faculdade, comtudo não a tenho senão quando quero. As imagens que eu vejo estão sempre em movimento; é assim que vejo as florestas, os animaes, os diversos paizes e tudo quanto eu quero vêr. Creio que a causa de todos estes effeitos está na actividade da minha imaginação e n'uma vista penetrantissima. Desde a minha infancia tinha de commum com Tiberio Cesar o poder vêr na obscuridade mais profunda, como em pleno dia. Porém não conservei muito tempo esta faculdade. Apesar d'isso vejo ainda alguma coisa, postoque não posso distinguir bem o que vejo; e attribuo este effeito ao calor do cerebro, á subtileza dos espiritos vitaes, á substancia do olho, e á energia da imaginação.» (Lib. IV c. 43.)
É esta uma qualidade vulgarissima nos povos do norte, principalmente os insulares, conhecida sob a denominação de Second sight. Ahi a imaginação tendo pouca variedade de paizagem que a fecunde, volta sobre si o que ha edificado e exagera-lhe as proporções. Por isso as theogonias do norte são terriveis. As avalanches suspensas a precipitarem-se, os nevoeiros diffundidos por toda a parte como um sudario immenso e frio, a aurora dos polos a desdobrar-se esplendida, tudo faz sonhar de um mundo phantastico, escutar essas toadas vagas, indefiniveis dos espiritos que se annunciam pelo ressoar de uma harpa longinqua.{9} O dom da visão é commum; é assim na ilha de Ferroë. Que virgens se não ostentam n'uma apparição repentina, e que o vidente procura, sem nunca mais poder encontral-as! Balzac, o observador sem egual do coração, sentiu toda a poesia do norte no poema de Seraphita; é um mysterio, o enlace da philosophia e da poesia, um extasis indecifravel de Swedenborg, contemplado nas fiords da Norwega. O delirio de Seraphita é o problema incessante da percepção immediata; o seu amor é mais puro que o ideal de Dyotima, é elle que lhe dá a segunda vista.
Taishatrim e Phissichin são os nomes que em lingua gaëlica se dão aos que tem esta faculdade. Os factos observados são innumeros, o seu estudo é dos nossos dias. Kant combateu a doutrina visionaria de Swedenborg, mas não attendeu que este phenomeno physico era todo sentimental; viu no patriarcha dos videntes do norte um impostor. A vida exemplarissima de Swedenborg é um desmentido completo e irretorquivel aos argumentos d'esta ordem.
Como explicar a inspiração continua, a segunda vista? A alma paira entre dois mundos—o physico com que se relaciona pelos sentimentos, o psychico com que se relaciona pelos presentimentos; se é attrahida para o mundo dos corpos, predominam n'ella os instinctos, e as sensações, todas relativas, só lhe advém pela presença dos objectos; se a alma por um desejo vehemente se eleva do estado de anima ao de spiritus, os sentimentos{10} desprendem-se do nexo das relações terrestres, e conhecem tudo independente das sensações pela representação subjectiva. É o que acontece aos poetas, cantando a belleza de fórmas não sonhadas, a reminiscencia de harmonias não ouvidas.
VI
Emma estava n'aquella tarde tão affavel! tinha por certo a consciencia de ir em breve completar-se na essencia de algum anjo. As suas fallas eram como suspiros. Lançou-me um olhar interrogativo, de quem temia fazer-me uma pergunta indiscreta. Eu desconhecia-lhe aquella affabilidade de seraphim, costumado a vêl-a sempre aéria, desdenhosa do mundo, radiante como na transfiguração do Thabor. Apertei as mãos d'ella entre as minhas, queria tirar um som d'este instrumento celeste, cujo segredo de harmonia era só percebido pelos anjos. Se podesse desferil-o, havia de perguntar-lhe o motivo de tanta tristeza, a intensidade d'essa dôr tão intima, tão espiritual, que se não póde exprimir na materialidade phonica da palavra. Ella adivinhou o meu desejo:
—Tens uma vontade energica?—perguntou-me quasi a medo e de um modo sybillino. Seria uma phrase abrupta para qualquer, e inintelligivel até; eu porém que devo á actividade só d'esta{11} faculdade tudo quanto sou, as grandes dôres, os impulsos irresistiveis, as glorias sonhadas, a realisação dos mais exiguos appetites, que a encontro na intensidade absoluta do Fiat, que é Deus, que a vejo nos grandes factos do espirito, a Religião, o Direito e a Arte: na religião manifestando-se emotivamente na fé; no direito, no accordo dos contractos individuaes; na arte, no ponto onde os gostos diversissimos se harmonisam, isto é o bello; eu, repito, comprehendi aquella interrogação na sua plenitude. E começava a conhecer mais o poder da vontade porque acabava de observar o resultado do acto em que a exercera.
Emma fitou-me com um olhar profundo; o semblante era magestoso e santo, como o frontispicio de uma cathedral da Edade média; as flexas, as linhas architectonicas a infinitivarem-se para o alto, eram os seus cabellos; o olhar, o olhar que me opprimia n'esse instante, era mysterioso como uma ogiva sombria. Tive o medo do neophyto, quando ouve mugir a caverna, e escoar-se a brisa gelida e olorante pela fenda do penhasco, e quasi que se esvae em terra sem sentidos, ao vêr attonito as convulsões do hierophante. Emma perguntou-me se eu cria nas relações com o mundo invisivel. Hesitei um instante, depois volvi:
—Creio, mas não as sei demonstrar por uma fórmula, que, embora refutavel, tenha valor philosophico.—Ella ouviu-me com o pezar e serenidade de uma joven esposa na sua viuvez, que{12} ouve o filhinho a perguntar-lhe pelo pae. Depois murmurou, encostando a face sobre o meu peito:
—És tão novo ainda, e porque matas em ti já o sentimento pela reflexão? A reflexão é fria, é terrena, não comprehende sem decompôr para recompôr. Como se ha de ella elevar ao simples, ao absoluto, que tem por attributo supremo a indivisibilidade? A luz, que é incoercivel, não se espelha na face quieta do lago? O sentimento é assim; só elle te póde levar além das relações e das contingencias. A substancia é unica; esta essencia d'ella é que prende pela unidade a multiplicidade dos attributos. Todas as vezes que te absorveres na unidade que te allia como attributo ou modo á substancia, entraste na essencia de todas as cousas, porque o simples que actua n'esse momento em ti, é o mesmo em que tudo existe. Vibra em ti a harmonia universal.