«O auctor d'esse assassinio mysterioso, diz a Gazeta dos Tribunaes,—depois de descrever o homicidio de um official de marinha ingleza que se affastava rapidamente n'um escaler de guerra, o Penguim, no canal de S. Jorge,—o auctor d'esse assassinio singular, pertencia a uma das mais antigas e illustres familias inglezas. Chamava-se lord A... e gosava no condado de Tifferay de todos os privilegios inherentes ainda á auctoridade feudal. Os sentimentos que lhe votavam, tambem, eram geralmente, mais do terror que os da amizade; porque era bem notorio que o lord, no seu odio pela Irlanda, não tinha retrogradado muito aos tempos da Rosa Vermelha e da Rosa Branca, e que não era por falta de vontade que os irlandezes não eram tratados tão deshumanamente como sob Henrique VII, quando conquistou aquella ilha e lançou as bases da legislação atroz que devia pesar sem interrupção sobre esta nação humilhada.
Não era voluntariamente, tambem, que lord A... viera estabelecer-se na Irlanda, depois de haver sido por muito tempo em Londres um dos dandys mais requintados do Regent Street e de Piccadilly: tinha-lhe cabido em herança um vasto dominio no condado de Tipperary. Mas o testamento do legatario tinha uma clausula pela qual se estabelecia que este não poderia ser senhor do dito dominio, senão com a condição de o habitar perpetuamente. O lord inglez, que estava longe de possuir uma fortuna correspondente á illustração do seu nascimento e ao seu amor do luxo, viu-se na necessidade de subjugar-se a esta extravagante exigencia.
A antipathia hereditaria que tinha á Irlanda mais se aggravou com esta restricção, e o seu humor, naturalmente melancholico, tornou-se sombrio e feroz. Comtudo, como era rico, e ligado a uma dama caritativa e formosa, que, afinal de contas, semeava em torno de si o dinheiro com uma rara profusão, a opinião publica mostrava-se paciente e attribuia, não sem razão talvez, as frias violencias e os excessos sem paixão a que se deixava levar, á originalidade do seu caracter.{204}
Lord A. seguido de um doutor que fôra chamar,—porque mal acabara de commetter o assassinio fôra chamar um medico para assistir a lady que se achava agonisando,—Lord A. seguido do doutor, atravessou silenciosamente o seu dominio, embrenhou-se no campo, e subiu com passo firme o caminho em declive que conduzia á entrada do castello senhorial.
O cuidado que se havia tomado de estender por todos os corredores uma espessa cama de palha e feno, a physionomia alterada dos creados que atravessavam machinalmente as camaras e os corredores, como para fugirem a um indomavel terror, emfim os gritos dilacerantes que quebravam, por intervallos, o profundo e frio silencio que reinava n'aquella casa, affirmavam sufficientemente que se estava representando ali uma scena de agonia.
Lord A. sem se dignar dirigir uma palavra aos creados, penetrou no quarto d'onde partiam os gemidos desesperados. Uma mulher extremamente nova ainda e de uma physionomia das mais seductoras, estava estendida n'um leito, na attitude de um soffrimento incrivel; os longos cabellos loiros desmanchados envolviam-a toda; corria-lhe o suor do rosto; e o corpo abalado de estremecimentos convulsivos retrahia-se sobre si mesmo a intervallos, com uma horrivel flexibilidade.
O lord parou a este espectaculo. A doente ouvira-lhe o ruido dos passos e pronunciára o seu nome: fixou n'elle um olhar desvairado com uma indefinivel expressão de dôr, e voltando-se para o medico, que se conservava ao pé do leito n'uma immobilidade contemplativa, bradou-lhe n'uma voz sonora que não admittia hesitação nem recusa:
—Não tendes nada aqui que fazer, senhor, sahi!
O medico parecia indeciso, e cheio de duvidas terriveis: no emtanto não tratou de se oppôr a esta ordem, porque um simples olhar bastou-lhe para comprehender que lady A... estava perdida. Todavia pegou na mão da doente, baixou-se para vel-a melhor, e não poude ser senhor de um estremecimento, observando que as unhas d'aquella mão, já livida,{205} estavam mosqueadas de pequenas nodoas negras. Assim que saiu do quarto, lady A... fez um signal ao lord de approximar-se, e opprimindo-lhe o braço com uma força cheia de paixão:
—Mylord, esperava-vos para morrer, não chameis ninguem, não invoqueis soccorro algum, o mal é irremediavel, o doutor bem o percebeu: viste-o!