A Renascença com as ficções gregas e romanas desnaturara o conto. No seculo XVII elle torna-se volumoso, arrebicado de galanice e galanteria amaneirada. As attenções tinham refluido sobre os trabalhos philosophicos; ficaram as creações imaginativas em poder das Gamberville, de Scudery, de La Calprenède e quejandos, que as alongaram fastidiosamente com pieguices sentimentaes, por essas séries indefinidas de volumes da Polexandra, Caritea, Cytherca, Cassandra, Pharemundo, Ibraim ou o illustre Bassa, Artamene ou o grande Cyrus, Clelia e Almahide. Os heroes apaixonados são Anacreonte conversando em amaveis versos, Bruto e Lucrecia, Horacio Cocles e Clelia, movidos pelos interesses da sociedade moderna; a magestade escultural da antiguidade e da historia em presença das pequeninas intrigas amatorias tocára o cumulo do ridiculo!
O movimento, a convulsão philosophica do seculo XVIII apparece tambem no romance e no conto. Lesage escalpelisa a natureza humana, e o Gil Blas é a synthese das observações profundas; o abbade Prevost analysa as paixões n'uma lucta intima, recondita, e procura os sentimentos novos que scintillam dos que se embatem e se destroem. Manon Lescaut é uma das verdades eternas do sentimento humano, a contradição do que mais se aspira e idealisa, a vontade negando-se, mobilisando-se nos multiplices desejos que tumultuam na alma. Voltaire philosopha tambem nos seus Contos. Diderot, sobretudo, a intelligencia mais robusta do seu tempo, mathematico, artista creador pela reflexão e inspiração, reduz ao interesse do conto, á peripecia da acção as verdades mais abstractas. Na assombrosa maravilha de arte, o Neveu de Rameau, mostra a maldade disfarçada em virtude pelas conveniencias; todos nos horrorisamos ao vêr alli o nosso retrato;{214} sentiamos aquillo, mas não tinhamos a coragem, a abnegação para dizel-o. O sobrinho de Rameau mostra-se infame, ao passo que é sublime de razão, porque diz tudo o que pensa. Vê-se agitarem-se n'aquelle cerebro em ebulição todos os processos intellectuaes. Na Religiosa, Diderot evoca as dores cruciantes e desconhecidas, soffridas nas trevas por um coração ingenuo, que é o ludibrio do interesse egoista, do fanatismo estupido, e da superioridade brutal. Este conto por si é uma revolução latente. A analyse delicadissima dos pequenos sentimentos que formam a grande lucta na alma da Religiosa não é inferior ao quadro do quietismo de Michelet no processo da Cadière, e excede por muitas vezes a profundidade com que Manzoni no Promessi Sposi retrata as agonias da desgraçada Genoveva no convento de Monza.
Uma vez descobertos estes segredos do sentimento, o conto deixou de ser individual; o romance é o desenvolvimento de uma these da vida na sociedade. Richardson é a admiração de Diderot; Goëthe descobre Diderot á Allemanha, traduzindo a sua obra prima; elle mesmo isola os sentimentos do amor e o dever no Werther e chega pela arte á conclusão logica do suicidio.
Hoffmann, o caricaturista das paixões, de uma individualidade extravagante, nas creações abstractas d'aquella imaginação de hypocondriaco deixa-lhes o incompleto do maravilhoso; mais tarde os editores dão aos seus contos o nome de phantasticos. Nos Contos de Hoffmann ha uma série de observações psychologicas, de impressões instinctivas que supprem a falta de imaginação; os seus contos são o diagnostico de uma alma doente. É o lado que os torna apreciaveis, apesar do capricho e grotesco dos typos a que a mente hallucinada dá fórma. Os Contos de Edgar Poë, a imaginação mais extraordinaria da America, têm o phantastico da insolubilidade dos problemas philosophicos que constituem a acção; tocam ás vezes a alta metaphysica. Tendo de transigir com as materialidades da vida, na esterilidade da indigencia pede a inspiração ao alcool; elle{215} sente a excitação lucida que lhe dá a força espantosa da invenção, mas conhece já em si a tremulencia, que é a decomposição inevitavel, e exclama no meio da fadiga—Não ha peior inimigo do que o alcool! Edgar Poë é a força da imaginação e do ideal supplantada pelo positivismo de uma sociedade manufactureira e orgulhosa do seu caracter industrial; nos seus Contos ha a allucinação prophetica da doudice.
A fórma do conto é estudada em todas as litteraturas da Europa; trazendo a lume este pequeno trabalho, só nos inspira a boa vontade de corresponder ao movimento que observamos lá fóra. Que mais teriamos a dizer de um livro simples que lhe não desnaturasse a intenção.
Coimbra, 8 de março de 1865.
THEOPHILO BRAGA.