Lição da Ajuda (nº. 123): Lição da Vaticana (nº. 824):

Nom est a de Nogueira E nom est a de Nogueira
A freira, que mi poder tem; a freira que eu quero bem,
Mays est outra a fremosa mays outra mais fremosa
A que me quer'eu mayor bem; e a que mim em poder tem;
E moyro-m'eu pola freira e moir-m'eu pola freira
Mais nom pola de Nogueira. mais nom pola de Nogueira.
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Se eu a _freira visse o dia E se eu aquella freyra
O dia que eu quizesse
hum dia veer podesse_
Nom ha coita no mundo nom ha coita no mundo
Nem mingua que houvesse nem pesar que eu ouvesse
E moiro-me … e moyro-me …

_Se m' ela mi amasse E seu aquella freyra
Muy gram dereito faria, veer podess'um dia
Cá lher quer'eu mui gram bem nenhuã coita do mundo
E punh'y mais cada dia;
nem pesar nom averia_
E moiro-me … e moyro-me …

Estas duas variantes são elaborações differentes do mesmo trovador em epocas diversas, e por tanto os dois cancioneiros provêm effectivamente de duas fontes. A canção 825 da Vaticana, que se acha sob o numero 124 do Codice da Ajuda, apenas tem a terceira e quarta estrophes alternadas. O ultimo paradigma entre estes dois cancioneiros, apresenta uma composição (1061 da Vaticana, 253 da Ajuda) que pertence a João de Gaya, escudeiro da côrte de D. Affonso IV, por onde se fixa não só a epoca da colleccionação do codice de Lisboa, mas em que a fonte do Codice de Roma nos apparece mais completa:

Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:

Conselho, e quer-se matar Conselho e quer-me matar.
E assi me tormenta amor
de tal coyta, que nunca par
ouv'outr'ome, a meu cuydar,
assy morrerey pecador,
e, senhor, muyto me praz en
que prazer tomades por en
non no dev'eu arrecear.

E bem o podedes fazer E bem o devedes saber, etc.

Por todos estes factos se vê, que umas vezes o Codice de Roma é omisso com relação ao de Lisboa, o que se poderia impensadamente attribuir a incuria do copista; esta hypothese não pode ter logar, porque o Cancioneiro da Ajuda por muitissimas vezes apresenta eguaes omissões. Por tanto essas cincoenta e seis canções communs aos dois codices, entraram n'essas respectivas collecções provindo de codices parciaes e de differente epoca.

Relações do Cancioneiro da Vaticana com o apographo actualmente possuido por um Grande de Hespanha. — No Cancioneirinho de Trovas antigas, Varnhagem dá noticia no prologo, de ter encontrado em 1857 na Livraria de um fidalgo hespanhol um antigo cancioneiro portuguez, que, pela canções de el-rei D. Diniz que elle continha, lhe suscitou o procurar as analogias que teria com o Cancioneiro da Vaticana n°. 4803; tirou copia do citado Cancioneiro, e em 1858 procedeu em Roma ao confronto do codice madrileno com o da Vaticana. Começavam ambas as copias com a trova de Fernão Gonçalves, seguindo-se-lhe as duas canções de Pero Barroso; ambos os codices combinam nos mesmos nomes de trovadores, na ordem das canções, e em geral nos erros dos copistas. Poder-se-ha concluir que estes dois apographos se derivam ambos do mesmo original? Não; apezar de Varnhagem não ser mais explicito na descripção do codice madrileno e guardar no mysterio o nome do possuidor, comtudo pelas cincoenta composições do Cancioneirinho se descobrem profundas variantes, que se não podem attribuir a erro de leitura, ainda assim tão frequente em Varnhagem.