«A noite era já cerrada; e enquanto Galba mandára lançar fogo ao montão dos cadaveres entre os quaes fôram encontrados os dez Elephantes de Massinissa, d'entre esses cadaveres escaparam-se alguns individuos que se tinham occultado debaixo dos corpos exânimes, e que se fingiram mortos: são esses os que andam de cidade em cidade da Lusitania e da Turdetania pedindo vingança! Vingança! Vingança!»
Por valles e serras, e resoando de monte a monte, entoava-se um Canto de guerra, que fazia referver o sangue nas veias, exaltando os espiritos ainda os mais acabrunhados. O Canto podia mais do que a reflexão, e cada povo accrescentava-lhe uma nova estrophe, como a aspiração do resgate. A palavra poetica é alada, o pelo prestigio da tradição transpõe as edades repercutindo-se na alma dos vindouros.
Baladro de guerra
Terra da Lusitania,
Ensopada de sangue
Por horrendo baldão!
Chamou-nos o Romano
Para a alliança de paz,
Mata-nos á traição!
Virus de iniquidade,
D'esse fermento de odio
Brote a destruição.
Que a lança dos Quirites
Se quebre, e em nossa frente
Não se erga Legião!
Quem sobrevive ao crime,
E escuta estes lamentos
Da atroz desolação;
Quem perdeu lá seus filhos,
Os paes, entes queridos,
O esposo, o irmão;
Que se revoltem todos,
Peitos sejam escudos,
Lanças raios na mão!