—O meu maior amigo? Minouro...

Os borbotões de sangue que lhe encheram internamente o peito e respingaram pelos pannos da barraca, não deixaram que podesse mais exprimir-se, e ficou exanime, arquejando, até ao ultimo alento, passando assim, horrorosamente, de um sonho tremendo, em que Viriatho, pela sua lealdade, não ousaria acreditar, para a realidade tragica e affrontosa, que ia actuar como uma eterna calamidade sobre o futuro da Lusitania.

A morte de Viriatho fez-se com rapidez e segurança; os tres Companheiros da Trimarkisia sahiram da barraca sem ruido, e simulando ordens recebidas de Viriatho montaram nos seus cavallos e partiram á desfilada para o arraial romano. Cepio estava dormindo; um Cavalleiro foi acordal-o, e dizer-lhe:

—Morreu Viriatho!

Quinto Servilio Cepio, voltando-se sobre o lado direito para continuar o somno, deu ordem ao Cavalleiro:

—Que esses entes abjectos esperem lá fora, até que seja dia.

[LII]

Viriatho era sempre o primeiro que percorria o acampamento; a sua presença era como um toque de alvorada. N'aquelle dia, que despontava luminoso e sereno, não apparecera; como faltavam tambem os seus tres Companheiros, facilmente imaginaram os Mil Soldurios que iria reconhecer algum fôjo ou desfiladeiro para organisar uma emboscada contra o exercito consideravel de Cepio. Mas o sol erguia-se; era dia claro, e a barraca do Caudilho conservava-se fechada. Occorreu a ideia de verificar se estaria cahido por doença; o que estava mais perto levantou resoluto o panno da barraca, e viu o vulto de Viriatho estendido em cima da relva, sobre póstas de sangue coalhado; e recuando com espanto:

—Está morto Viriatho! Apunhalado, apunhalado!

Aquelle brado sôou como um estalido de raio, quando, ao perto, fende o ár ambiente; o trovão foi o rumor propagado entre os Soldurios e por entre os Terços e Companhias, que formavam agora o pequeno exercito de Viriatho.