E quando Lisia disse para seu pae, o velho druida Idevor:

—O coração adivinha-me, que Viriatho está morto!

O velho respondeu com firmeza:

—Viriatho não podia morrer em batalha! Se não apparece, é porque anda lá por esses montes da Celtiberia, ou talvez pelo sul da Lusitania, ou Cynesia, organisando a resistencia. Não desesperemos!

Lisia, cansada de incerteza, teceu uma corôa de Verbena, a erva da segunda vista, e collocou-a na cabeça. Desde esse instante lhe occorreu o pensamento de consultar os oraculos para saber a verdade completamente, ainda que lhe causasse a maior dôr. E o oraculo mais sacrosanto e irreparavel nas suas revelações era o das Pedras baloiçantes, os Loghans, visitados na região dos Cynesios, junto dos quaes nunca ninguem se atrevia a ficar durante a noite.

Lisia, acompanhada de alguns ambactes ou serventuarios de condição livre, partiu com seu pae até á Ilha sagrada de Achale, aonde se recolheu o velho druida, e ella continuou a jornada com impaciencia, para ouvir a sentença definitiva dos Loghans, na região procurada por tantos crentes. Não tinha descanso emquanto não soubesse a verdade, mas verdade que decidia da sua felicidade, de toda a sua existencia:

—Viriatho está vivo? Viriatho estará morto?

E seguindo em temerosa jornada por desertos infestados por lobos, e por cidades occupadas por subditos de Roma, Lisia caminhava incolume, como no somnambulismo da concentração de uma saudade inconsolavel.

[LVII]

Contam-se maravilhas d'essa região dos Cynetas, na qual se ouve, segundo dizem, o esturgir dos raios ardentes do Sol quando se afunda nas aguas do Oceano, ao fim do dia. E tambem relatam viajantes audaciosos, que esses blocos de ambar amarello, de impagavel belleza, que o mar arroja ás praias, são a solidificação d'esses raios solares bruscamente mergulhados nas aguas. Mas entre tantas maravilhas, a que mais deslumbrava os espiritos é a dos Loghans, os penedos baloiçantes, que revelam o desconhecido a quem se aproxima d'elles e os interroga.