«A Lusitania revive, e ergue-se altaneira diante da Iberia, que procura absorvel-a na sua unificação. A Iberia serve-se do meio ardiloso de uma herança real, e recorre á invasão. Por entre a Ala dos valentes Namorados vêjo a Espada de Viriatho empunhada por um novo Caudilho! D'onde viria para a sua mão essa Espada? Eu vejo: entrega-lh'a o armeiro de Scalabis, que a desenterrou do chão em que se transforma o ferro no aço mais puro!»

Então Lisia, voltando a lamina refulgente, contemplou com mais assombro:

—«A Lusitania livre, depois de reconstituida no seu solo, reata a tradição dos antigos navegadores liguricos, e lança-se á descoberta das Ilhas do Mar Tenebroso, e tocando os dois continentes, vae fundar um novo Imperio lá aonde o sol se alevanta! É ainda a Espada de Viriatho na mão firme do seu Capitão terribil, que cimenta esse Imperio em bases inabalaveis, em que se mantem por seculos! Para que prescrutar tanto o futuro? A Lusitania revive...»

Lisia entregou a Espada de Viriatho ao velho druida para a guardar no thezouro secreto da Ilha de Achale; e cansada da visão presciente caíu em um somno cataleptico, em que ficou por muitas e muitas horas extactica, inerte, semi-morta, insensivel. A dôr inconsolavel divinisava-a; tinha na face uma expressão sobrehumana.

[LIX]

Lisia recobrou os sentidos, como se um golpe subito a ferisse; levou a mão ao peito, e ergueu-se respirando com anciedade, olhando em volta de si para descobrir que pezo enorme era o que a comprimia e abafava mortalmente! Sempre a terrivel realidade, a perda irreparavel, a desolação sem esperança. Lembrava-se do funeral de Viriatho, da fogueira da gigantesca pyra, e da ventura inexprimivel de acompanhar o Esposo confundindo-se com elle na mesma chamma, identificando o seu espirito no mesmo ár ambiente, eternisando-se na energia restituida ao universo!

E pensando n'esta voluptuosidade da morte, acarinhou-a a ideia do suicidio, notando quanto mais felizes fôram aquelles Companheiros de Viriatho que tinham jurado a confraternidade para a vida e para a morte; esses em um duello desvairado bateram-se sobre a sua sepultura até cahirem exangues e ficarem alli enterrados conjunctamente, em um sacrificio de amor, sob o mesmo solo! E ella, como esposa de Viriatho, embora sempre noiva, poderia continuar a viver? Lisia considerava a vida como uma degradação, um vegetar da animalidade sem motivo. Queria arrojar de si esta carga, tornada incomportavel pelo tedio da propria existencia.

Começára a estação hibernal; noites caliginosas e longas tornavam-lhe as insomnias hallucinantes. Grandes tempestades passando por sobre a Torre redonda da Ilha de Achale consolavam-a nos seus rugidos de colera e desespero. Ondas alterosas e alvissimas arrojavam-se d'encontro ás rochas sobre que estava assente o vetusto monumento.

Lisia começou a passar pela lembrança todos os lances do seu primeiro e santo amor: como Viriatho lhe tomou as mãos no alto da Torre redonda, como lhe poz o cinto de ouro, como lhe entregou no dia do consorcio a Viria do commando; como a beijou suavemente, e o abalo subito em que as festas do casamento fôram interrompidas pelas palavras:—Cepio rasgou o tratado de Paz com a Lusitania!—e a brusca despedida de Viriatho para nunca mais!...

Ao chegar a este ponto, a imaginação de Lisia obscurecia-se, cahia em deliquio, em um goso de dôr destructiva. Arrancando-se a essa deliciosa angustia, reflectiu: