—Não me serves para escravo; és velho e pançudo. Ninguem dará por ti um sestercio.
E tocando-lhe com a foice roçadoira no hombro, continuou Viriatho:
—Não te matarei, sem que te defendas.
Vetilio fitou attonito aquelle homem magro e enxuto de carnes, e vendo que tudo para si estava acabado, atirou com a sua espada ao chão, renunciando como caricata a qualquer tentativa de defeza. Um dos soldurios de Viriatho atravessou o Consul com um dardo de lado a lado; mas em Roma referia-se que Vetilio morrera sim, mas ás mãos do proprio Viriatho.
O exercito consular, reconhecendo-se sem chefe, abandonou o campo e tratou de pôr-se a salvo. Em marchas forçadas, os seis mil legionarios que escaparam dirigiram-se para uma cidade do litoral chamada Carpesso, na região da Tartessida. O Questor pretorial tratou de organisar-lhe a defeza, fazendo em roda da cidade fóssos e trincheiras da terra revolvida, com receio do assalto do destemido cabecilha lusitano ás arcas do thesouro, ás bagagens, auxiliares e cavallos de remonta, que por irem no couce do exercito não se encravaram na patameira.
[X]
Depois d'este feito, em que o exercito lusitano se viu salvo pela astucia e coragem de Viriatho, a confiança no seu commando centuplicou-lhe as forças, seguro de que elle o conduzirá á victoria, e só elle saberá sustentar a independencia da Lusitania. Uma cousa veiu acordar o resurgimento do acabrunhado povo, o impeto que suscitava esta incomparavel victoria da astucia sobre a força bruta.
Quando Vetilio foi agarrado por Viriatho, os lictores que acompanhavam o Consul com os feixes de varas peculiares da dignidade curul, entregaram-as ao vencedor, como uma transferencia do poder supremo. O Cabecilha mandou desamarrar os feixes de varas, e distribuiu-as pelos seus soldurios, aos de maior confiança d'entre os mil Cavalleiros que se lhe devotaram:
—Cada um de vós, irá por todos os Castros, Citanias e Herminios, cravar no chão a vára do lictor, que eu entrego na fé celtiberica. Essa vara é o symbolo da guerra accesa e contínua; onde ella se hasteia chama os povos ás armas, e exige soccorro aos que combatem. Tal é o poder da antiga tradição da nossa raça. E se a lança fincada no chão podia mais do que um grito de guerra, a vara do lictor arrancada ao poder do Consul romano hade alevantar todas as nossas tribus unindo-as n'uma só vontade, para repellirem o invasor do seu territorio.
Cem soldurios partiram logo com as varas distribuidas dos feixes dos lictores, e fôram craval-as nos herminios e montes povoados, como um annuncio da inesperada victoria, e de que a guerra contra os Romanos seria agora incessante. Foi assim a noticia levada muito longe, e de longe vieram novos trôços e viveres, para reforçarem e abastecerem os guerreiros lusitanos.