Pela sua genial intuição teve Garrett a comprehensão d'este caracter resistente e soffredor da nossa raça lusitana: «Os Portuguezes são naturalmente soffredores e pacientes: muito arrochada hade ser a corda com que de mãos e pés os atam seus oppressores, antes que rompam em um só gemido os desgraçados. Um murmurio, uma queixa... nem talvez no cadafalso a soltarão! Vendem-nos os desleaes pegureiros de quem nos deixamos governar; vendem-nos, enxotam-nos para a feira a cajado e a latido e mordedella de seus mastins; e nós vamos e nem gememos. Se um clamor de queixumes, se uma voz de desconfiança acaso surde, aqui os clamores de rebeldes, os alcunhas de demagogos... e a nação (o rebanho, direi antes) que se resigna e soffre, e continua a caminhar para o exicio! Tal é, com as differenças de variados nomes e datas, a historia de Portugal quasi desde que a revolução ou restauração (restauração seria?) de 1640 fez da nação portugueza o patrimonio de meia duzia de familias privilegiadas e de seus satelites e parasitos.» (Carta de M. Scevola, 1830.)

Symbolisamos esta resistencia, vivificando o typo de VIRIATHO, reconstruindo poeticamente as situações laconicas referidas nos historiadores classicos; representamos artisticamente essa fibra que ainda hoje pulsa em nós, e pela qual, perante a marcha da Civilisação se affirma através dos cataclysmos politicos a ALMA PORTUGUEZA.

Assuetum malo Ligurem, disse Virgilio (Georg., II, 102) d'essa poderosa raça, de que o Lusitano foi um dos ramos mais activos; as terriveis desgraças que nos têm acompanhado desde a romanisação da peninsula até á subserviencia ingleza, como acostumados ao mal, não nos têm alquebrado: não apagaram a constituição da Nacionalidade, não embaraçaram as iniciativas dos Descobrimentos maritimos; não abafaram a expressão das altas capacidades estheticas. Pela expressão artistica se fixou a lingua portugueza, orgão reconhecido da nacionalidade, cujo sentimento se manteve pela idealisação poetica, em Camões. Seja ainda esse recurso poetico o meio de acordar a consciencia do passado de um Povo, no qual estão implicitos a sua rasão de ser presente, e o ideal do seu destino futuro.

Um dos fins da Arte moderna é a representação da vida dos povos e dos aspectos da natureza dos paizes longinquos, e tambem a evocação das edades passadas, vencendo por este exotismo o apagamento das impressões de tudo quanto nos cérca; assim se inicia a phase esthetica constructiva. Pela evocação da Raça penetra-se o sentir da fibra nacional, e por esta o drama das luctas das Instituições que se fundaram, o vinculo das Tradições, que foram germens e impulsos da missão historica e das creações artisticas que reflectiram a consciencia da collectividade.

[VIRIATHO]

[I]

No anno de DCIII da éra da fundação da Cidade de Roma, sendo Consules L. Licinio Lucullo e A. Postumio Albino, acontecimento inopinado suscitou nos espiritos um extraordinario alvorôço: O Senado fôra convocado repentinamente, com urgencia, sem ser pela fórmula usual de um Edito, mas pela peremptoria chamada nominal ordenada pelo velho e integerrimo Catão, denominado o Censor.

A gravidade do acontecimento forçára por certo o venerando presidente do Senado a simplificar essa fórmula da convocação? Algum grande crime perturbava ou ameaçava o governo da Republica! A curiosidade era immensa, e antecipadamente sabia-se que a voz austera de Marco Catão, o Censor, se ergueria no Senado contra o patricio o mais opulento dos romanos, que dispunha de riquezas bastantes para corromperem os juizes aos quaes se confiasse o seu julgamento.

Galba! era este o nome que soava de bocca em bocca, mais com inveja do que hostilidade, desde que o Tribuno do Povo Aulo Scribonio o citára para comparecer em justiça pelas depredações e carnificinas que praticára contra as Tribus e cidades tributarias da Lusitania, que como Provincia senatorial estava sob a égide da lealdade romana.

Era de um crime contra a magestade do Povo romano, que versava a accusação do Proconsul Servio Sulpicio Galba, ao qual fôra confiado o governo e administração da Hespanha Ulterior, essa parte occidental da peninsula em que se comprehendia a vasta Lusitania. Ninguem se atrevia a pôr em duvida a valentia do tribuno militar, que fôra á Hespanha com a missão especial de combater e submetter os Celtiberos; mas, sendo conhecida no mundo a gloria do Senado, que, vae para quatro seculos, dirige com um tino incomparavel as guerras de incorporação dos povos barbaros, como poderá consentir que no exercicio d'essa missão civilisadora lhe infamem a inviolavel auctoridade?