N'isto roçou a barca em uma lingueta de areia, que se ia alli formando em cabedello, e que com o andar dos seculos encheu esse ponto de communicação do rio Sado com o Oceano tornando-se com as turfeiras uma extensa peninsula, sobre a qual se accumularam apparatosos monumentos, que por seu turno foram tambem devastados pelo tempo.
Viriatho e os seus trez companheiros desembarcaram alegres; Idevor com um longo séquito de Endres, ou cantores e educadores do povo, veiu ao seu encontro, e entre musicas ruidosas e hymnos festivaes foram conduzidos para a vasta quadra que formava o andar terreo da Torre redonda. Era ahi a sala do banquete, em que se fazia a Symposia dos Chefes das Contrebias lusonias, quando se manifestavam sobre os destinos nacionaes. Era a primeira vez que Viriatho se assentava á cabeceira da meza, como se fosse um Brenn ou Hegmon das tribus.
E apenas Idevor o conduzira ao seu logar, entraram na quadra nove donzellas encantadoras, das mais bellas do typo da raça, cingidos os cabellos castanhos com litas douradas que desciam com as madeixas soltas ao longo das costas; e dansando em volteios com sentido hieratico, e cantando em unisono um côro que repetiam, foi o seu canto interrompido por uma voz argentina que parecia partir do alto da sonora quadra. Viriatho ergueu os olhos para descobrir d'onde vinha aquella voz que o penetrou com uma vibração seductora e dominativa, e viu lentamente descendo do primeiro andar da Torre redonda uma Donzella de uma graça e frescura sobrehumana.
Era Lisia, a filha do velho endre, e como elle conhecedora dos mythos da raça, e guarda das tradições mais augustas das tribus lusonias. Estava vestida com uma tunica branca guarnecida de purpura de Elisa, que os Tyrios tinham tornado celebre no mundo, cingida por um cinto de malha de ouro; uma lunula de ouro chato com finos ornamentos abarcava-lhe todo o alto da cabeça e vinha ás pontas das orelhas. Era uma Semnothêa, cercada por um grupo de nove Virgens, com quem no alto da Torre redonda celebrava os mysterios cultuaes. Lisia acabou de descer o longo escadorio, e atravessando por entre o Côro das donzellas, que a foram seguindo, tomou de uma ára a taça de ouro destinada ás symposias, e chegando em frente de Viriatho, estendeu o braço desnudado, alvissimo e de um contorno esculptural, appresentando-lhe a taça de ouro:
—Bem vindo! Viriatho. Só para ti, e com a minha felicidade.
Sob uma emoção repentina e como que subjugado pela belleza extrema que alli lhe apparecia, Viriatho tomou a taça da branca mão de Lisia e extactico, paralysado no seu movimento, não a levou logo aos labios. No rosto de Lisia transpareceu uma melancholia instantanea; seria desattendida a sua escolha? não a amaria o guerreiro de que tanto lhe fallavam, cujo nome se repetia nos cantos do povo e em hymnos de victoria?
Tudo o amor adivinha; lê nas almas, e o silencio é a linguagem mais expressiva da emoção ineffavel. Viriatho comprehendeu o vislumbre de tristeza que obumbrou o semblante de Lisia, e accudindo á hesitação involuntaria de que não se apercebera, levou a taça de ouro aos labios:
—Á tua saude! e para sempre.
Entrega em seguida a taça a Lisia, que com um rubor fascinante a levou aos labios, como completando a cerimonia tradicional esponsalicia, murmurando com suavidade:
—Para sempre!