Da cidade de Vacca partiu o cortejo dos moços á frente de Viriatho, que iam ao encontro da noiva, que vinha da Ilha sagrada de Achale, acompanhada por seu pae Idevor e pelo grupo das donzellas de todas as cidades lusitanas lá reunidas para essa marcha. Por onde Lisia passava punham-lhe arcos de flôres e verdura; tapetavam-lhe a estrada com ramos e plantas aromaticas de alecrim e verbena, e arrojavam-lhe punhados de trigo, cantando seguidilhas de felicitação e augurando venturas.

Quando o cortejo chegou á margem do Vaccua, os grupos interrogaram-se mutuamente, e depois de simuladas as perguntas e respostas, em que Lisia era concedida como esposa a Viriatho, o guerreiro passou o rio com presteza, e como por encanto lançando o braço em volta da cinta de Lisia, levantou-a do chão para cima do seu cavallo branco, partiu á desfilada fazendo o acto cerimonioso do rapto. Todos os mancebos foram apoz elle, mas quando chegaram á cidade de Vacca já encontraram Viriatho e Lisia juntos no balcão de pedra que dava entrada para a casa que fôra construida para habitação dos noivos.

Diante do terreiro da casa, coberto por uma extensa ramada, cheia de dourados cachos de uvas, começaram os cantos e dansas; e depois da chegada de Idevor, os noivos desceram para vir ao encontro do velho endre, a quem beijaram a dextra, que alli diante de todos consagrou aquelle consorcio unindo-lhes as mãos. Então, de braço dado, os dois esposos dirigiram-se á Cava enorme, dentro de cujas muralhas estavam expostos como em uma Feira franca todos os gados, cereaes, tecidos, objectos de trem domestico e mais delicados presentes, que as populações lusitanas offertavam a Viriatho como seu libertador. A vista d'essa assombrosa homenagem manifestava o quanto Viriatho era querido, e bem explicava a confiança com que á sua bravura tinham ligado os seus destinos aquellas terras, que elle conseguira libertar.

Viriatho e Lisia foram percorrendo a Cava, em que estavam expostos todos os presentes, que representavam as riquezas das regiões lusitanas. Reconhecia-se a região do Norte, entre Douro, Minho e Beira Alta, pela abundancia dos seus milhos, pelo centeio da primavera e do verão, pelas excellentes castanhas. A região montanhosa da Beira Baixa e Traz-os-Montes, pelos seus nedios bois, carneiros e cabras das boas pastagens das encostas e valles; e pelo seu trigo molle e centeio. A região central da Extremadura até ao Tejo, mandava das suas extensas e ferteis landes os trigos molares e rijos, castanhas deliciosas, azeite cordovil e vinhos generosos. A região do sul, Alemtejo e Algarve, appresentava o trigo de inverno, os figos sêccos, tamaras, alfarrobas e castanhas piladas, e porcos de uma creação afamada.

Viriatho, lembrado dos annos da campanha libertadora, não pôde olhar para os cavallos em que vieram os chefes das Contrebias, sem confessar quanto devia ás suas qualidades de resistencia excepcional. E conversando com os chefes que o rodeavam, iam uns e outros notando:

—Este typo galleziano, de cavallos pouco corpulentos, e resistentes ao trabalho, é commum ao Minho, ás Asturias, Vasconia e Navarra.

—E estes mais corpulentos, com grande aptidão para o trabalho de carga e de tiro, fórmam uma variedade castelhana, que se encontra ahi pelo Minho, Traz-os-Montes e Beira.

—Cá para mim, o typo da minha paixão é o betico-lusitano! Estes cavallos das provincias do sul, são elegantes de fórmas e de postura. É olhar para essa raça de Alter, das Lesirias do Tejo e do Alemtejo; incomparaveis.

Em homenagem a ter Viriatho sido na sua mocidade pastor e chefe da Mésta, grandes manadas de bois vieram á feira apparatosa, na representação de cada provincia. Viriatho foi passando vagarosamente diante das manadas, interrogando com enthusiasmo, e caracterisando com os chefes das Contrebias as differentes raças.

—Estes bois vermelhos, amarellos e fulvos, isto é que é proprio para trabalho! as vaccas são extremamente leiteiras. Quem não reconhece n'este gado o Minho e a Galliza?