Unicamente dois paizes, a Dinamarca e a Suecia, com as suas dependencias, adoptaram de um modo permanente a confissão de Augsburgo e os principios lutheranos do governo da egreja.

A Reforma estava n’estes paizes, mais do que em qualquer outra parte, identificada com a revolução politica, e foi executada por governantes que se haviam compenetrado de que não era possivel melhorar o estado das coisas emquanto não fosse abatido o poder de que o clero romano dispunha. A historia da Reforma n’esses paizes é a historia de uma revolução, e a moderna vida politica da Dinamarca e da Suecia principia com a reforma das suas egrejas.

No principio do seculo dezeseis, a Dinamarca, a Suecia e a Noruega estavam sob a soberania de um rei que tinha a sua residencia no primeiro d’estes paizes, e que tinha sobre os outros dois um poder apenas nominal. Estes paizes estavam quasi n’um estado de anarquia. Duas grandes aristocracias, a da nobreza e a da egreja, dividiam entre si a riqueza e o poderio, sendo cada um dos barões e cada um dos bispos um verdadeiro despota para com aquelles que estavam debaixo da sua auctoridade. A união das tres nações, effectuada no fim do seculo quatorze, era puramente dynastica, e vista com muito maus olhos pelo povo.

Em 1513 subiu ao throno Christiano II, cruel, voluvel e nescio monarca, que grangeara em ambos os paizes a antipathia de todas as classes. Um massacre de fidalgos suecos, que teve logar em Stockolmo, em circumstancias as mais revoltantes, exgotou a paciencia do povo, e a Dinamarca e a Suecia levantaram-se contra o tyranno. A revolução foi bem succedida; Christianno II foi derrubado do throno, e as duas nações ficaram de ahi em deante independentes uma da outra.

Na Dinamarca.—Os dinamarquezes offereceram a corôa a Frederico I, duque de Schleswig-Holstein, que era um ardente lutherano, e chefe d’um estado que já tinha acceite a Reforma. Acceitou-a, e por occasião da sua coroação o clero obrigou-o a declarar por escripto que não introduziria á força a religião reformada, nem atacaria a egreja de Roma, nos seus novos dominios. Frederico cumpriu essa obrigação segundo a letra, mas não segundo o espirito, da mesma. Favoreceu e protegeu prégadores e evangelistas lutheranos, e em particular a João Jansen, frade dinamarquez, que tinha estado em Wittenberg; e a nova fé fez taes progressos que dentro em pouco quasi todos os nobres da Jütlandia a tinham abraçado, e nas ilhas o numero de adeptos era consideravel. Em fins de 1527 reuniu-se em Odensee uma Dieta, expressamente para ser tratada a questão religiosa, e ficou assente a tolerancia do lutheranismo. Durante os annos que immediatamente se seguiram, as novas doutrinas espalharam-se com rapidez por entre o povo. Os catholicos romanos intentaram readquirir o seu poder por occasião do fallecimento de Frederico, em 1533, mas não o conseguiram, e a auctoridade dos bispos foi desapparecendo a pouco e pouco, até se extinguir de todo. Os nobres haviam cooperado com o rei na sua obra de demolir a aristocracia ecclesiastica, e as terras que eram da egreja ficaram, na sua maioria, pertencendo ao rei.

A Dinamarca ficou sendo, desde então, um paiz protestante. O seu credo é a confissão de Augsburgo, porque os lutheranos nunca adoptaram, na Dinamarca, a formula da concordata; o seu catecismo é o de Luthero; e sua fórma de governo de egreja, posto que admitta um episcopado, é consistorial. A constituição vem exposta no Ordinatio ecclesiastica regnorum Danicæ et Norwegeæ, de Bugenhagen. O rei possuia o jus episcopale, e era a suprema dignidade ecclesiastica; os nobres eram os patronos; e a Egreja era governada por sete superintendentes com o titulo de bispos. Na grande lucta entre o protestantismo e o catholicismo romano no seculo dezessete, a chamada guerra dos Trinta Annos, a Dinamarca enviou aos protestantes da Allemanha todo o auxilio de que o paiz podia dispôr.

Na Suecia.—Depois do massacre de Stockholmo, Gustavo Vasa, joven fidalgo sueco, que havia perdido quasi todos os parentes n’aquella carnificina, organisou a rebellião contra Christianno II, e trabalhou muito para que ella tivesse bom exito. Em 1521 foi declarado regente do reino, e em 1523 foi, pela voz do povo, chamado ao throno. Achou-se em presença de difficuldades quasi invenciveis. Não tinha havido, praticamente, um governo estabelecido na Suecia durante mais de um seculo, e cada dono de terras era quasi um soberano independente. Dois terços das terras pertenciam á Egreja: e o terço restante pertencia quasi inteiramente á nobreza; os camponezes eram em toda a parte opprimidos; o commercio estava nas mãos da Dinamarca ou da Liga Hanseatica; e não havia classe media. Os nobres e os ecclesiasticos exigiam isenção de contribuições, e os camponezes não podiam supportar novos encargos.

N’estas circumstancias Gustavo Vasa voltou os olhos para as terras da egreja, e planeou a demolição da aristocracia ecclesiastica com o auxilio da Reforma lutherana.

Parece não haver razão para crer que o rei não fosse um homem religioso, perfeitamente compenetrado da verdade e do poder das doutrinas evangelicas; mas o seu zelo pela Reforma obedecia tambem a outros motivos. Precisava de dinheiro para as despezas publicas, queria proporcionar aos camponezes uma situação mais desafogada, e ambicionava, acima de tudo, demolir a poderosa aristocracia ecclesiastica, que se arrogava direitos que só a elle pertenciam como rei. Teve de proceder cautelosamente. A gente do campo não conhecia as doutrinas lutheranas, nem queria mudar de religião; os nobres opinavam que o rei estava atacando os direitos da propriedade, e que lhes chegaria a vez a elles, se consentissem que os bens da egreja fossem arrebatados; e, quanto á aristocracia ecclesiastica, essa dispunha de muita força.

É necessario tambem lembrar que, quando Gustavo se poz á frente do movimento que tinha por fim derrubar a tyrannia da Dinamarca, essa tyrannia foi abençoada pelo papa e recebeu o apoio dos bispos suecos. Elle era um homem excommungado, um homem a quem a egreja havia proscripto. Essa circumstancia pôl-o em contacto com os prégadores lutheranos, que já andavam pela Suecia.