—Vossa excellencia está louca! acudiu apressadamente o commendador. Entregar contos de réis a um rapaz da edade de seu filho! Lançar Manuel n'um paiz como o Rio de Janeiro, proporcionando-lhe os meios de se perder! Nem por sombras! Quaes contos de réis! Com seis moedas desembarquei eu em S. Paulo, e ao cabo de doze annos possuia uma fortuna para cima de dez mil libras! Contos de réis! Só essa me faria rir! A passagem paga, meia duzia de moedas, e as cartas de recommendação que para ahi lhe entregarei, são mais do que o sufficiente.

—Mas não me disse v. ex.ª que meu filho era um rapaz de juizo, honesto e moral? Que receio teremos em lhe entregar o que realmente lhe pertence? Não é elle o meu unico herdeiro?

—Fará vossa excellencia o que entender, e se lhe quer entregar tudo quanto possue, faça-o; está no seu direito, e lavo d'ahi as minhas mãos. Se quer que lhe preste as minhas contas, estou muito prompto a fazel-o. Sabe que o unico interesse que tenho em tudo isto é apenas o seu bem estar, e o futuro de Manuel. Se quer estragar tudo quanto tenho feito em seu proveito, é senhora das suas acções, póde fazel-o, que desde este momento me considero desligado de todos os meus encargos.

Esta linguagem, rude mas na apparencia sincera, produziu no animo debil de D. Marianna o resultado que o commendador desejava. Affeita a obedecer-lhe em tudo, havia-se deixado dominar completamente por aquelle homem que, segundo a opinião de todas as pessoas que frequentavam a sua casa, havia sido um anjo salvador.

Dois annos depois da sua administração, os vinte contos de réis, que rendiam á viuva cem mil réis por mez, haviam subido a um rendimento de um conto e seiscentos por anno, graças á applicação que elle dera a esses capitaes. Quanto ao producto da propriedade, era um segredo, que mais dia menos dia seria revelado como surpreza agradavel. Que razão teria ella para o arguir de mau administrador?

Estas e outras circumstancias faziam com que D. Marianna obedecesse cegamente a quanto elle lhe impunha.

No dia immediato, Manuel chegou-se a sua mãe, afim de saber o que se havia passado entre ella e o commendador.

—Sinto deveras que me queiras abandonar, porém se essa é a tua vontade, vae, e que as minhas orações, acompanhando-te sempre, te possam salvar de todos os perigos. Quanto a dinheiro ajuntou ella, esperançada em que o commendador se resolvesse a entregar-lhe maior quantia, dir me-has quanto necessitas.

—Nunca pedi contas nem a minha mãe nem ao sr. commendador, mas supponho que não farão grande differença nos capitaes que devemos possuir quatro ou cinco contos de réis para me estabelecer, mas ainda assim, se minha mãe suppõe que essa quantia é muito avultada, contentar me-hei com menos, ou por ultimo, com aquillo que julgarem conveniente. É tudo quanto tenho a dizer-lhe, accrescentou elle, pregando os olhos no olhar turvo e entristecido de D. Marianna.

No dia seguinte a viuva foi ao escriptorio do commendador e contou lhe o que passára com Manuel.