XXV

Alguns esclarecimentos ácerca de Manuel de Mendonça, de quem vossa excellencia e a pallida Martha, ha tempos a esta parte, nada tem sabido.

Quando verdadeiramente fascinado pela formosura da filha do operario, saiu do hotel Bragança—vespera da retirada de Jeronymo para sua casa—o maritimo havia-lhes promettido de brevemente os visitar; porém, reflectindo mais pausadamente sobre esse gravissimo assumpto, quiz ainda forcejar com o coração, abafando-lhe quanto podesse a chamma que o consumia!

Tudo foi inutil! Ao cabo de dez dias, a pobre alma, cada vez mais preza á recordação de Martha, ia a tal ponto identificando-se com ella, que Manuel resolveu de si para si, ou sahir immediatamente de Portugal ou pedir a filha de Jeronymo.

No dia seguinte ao romper da manhã já elle tinha procurado Mascatudo. Fechando-se ambos na camara, participára-lhe a sua resolução.

O marinheiro, cujo unico desejo era a felicidade de Manuel, abraçou de boa mente a sua determinação: elle, que sobretudo não comprehendia a verdadeira ventura sem os verdadeiros regozijos da familia!

—Hoje mesmo, disse-lhe Manuel de Mendonça, irás informar-te pela visinhança sobre a conducta de Martha, e se fôr como eu supponho, e espero em Deus que seja, ámanhã mesmo irei pedil-a a seu pae.

«Que me importa que seja uma triste filha do povo, se o seu comportamento for virtuoso, pensava Manuel de Mendonça, encostando-se á amurada da sua galera. Quem sou eu? continuava elle, um homem sem familia, sem parentes! Que me importam os brazões dos meus antepassados! Em que concorreram elles para esta pequena posição que hoje tenho na sociedade? Quanto sou, devo-o a mim, e só a mim! Está decidido, em oito dias, Martha será minha mulher.»

D'alli a meia hora, Mascatudo com o seu fato domingueiro, approximou-se de Mendonça.

—Á ordem, meu commandante.