—Quer recolher-se a um convento?! respondeu D. Maria.

—Recolher-se a um convento!? perguntou Tristão como se não acreditasse em similhantes palavras. Recolher-se a um convento! accrescentou elle, voltando-se para Magdalena. Tu, filha da minha alma? Abandonares-me? Tu que és a unica ventura da minha vida? Mata-me primeiro, e depois, faze o que te aprouver! Sabes o que significa essa palavra «deixares me!» Ignoras que só tu me tens sustido a existencia? Não conheces inteira a minha vida? Não te contei todos os sacrificios que tenho feito por tua causa? Desconheces o que fiz para te ganhar um patrimonio; para ti, só para ti, que és a vida da minha vida? Deixares-me! quando a existencia começa a sorrir-me... quando os meus cofres cheios de ouro se despejariam ao teu mais pequeno capricho? Deixares-me quando a gloria desce sobre a nossa familia, não digo por esse titulo que não passa de uma miseria, mas pelo que temos feito por esses desgraçados. Se amas alguem, bom ou mau, rico ou pobre, dize m'o, e farei tudo para me não separar do teu lado. Se fôr bom, abraçal-o-hei, se mau, tu o tornarás bom, Magdalena! Pobre, o meu ouro o fará enriquecer, e tu verás cumpridos os teus desejos. Mas deixar-te? Nunca, torno a repetir t'o!

—A minha resolução é inabalavel; comtudo, antes d'isso, tenho um grande favor a pedir lhe:

Tristão parecia attendel-a sem consciencia de vida.

—Segundo meu pae muitas vezes m'o tem dito, o meu dote é de quatrocentos contos?...

—O teu dote é tudo quanto eu tenho, Magdalena, respondeu-lhe Tristão, e se ainda mais quizeres, accrescentou elle, mais ainda serei capaz de te adquirir.

—Peço-lhe portanto um favor, meu pae.

—Dize.

—É que d'esse dinheiro, disponha de cincoenta contos para eu poder dotar uma amiga que tenho, se porventura ella resistir á enfermidade que a anniquila.

—Terás, não cincoenta contos de réis para essa amiga, mas cem, duzentos ou aquillo que te aprouver! Porém, abandonares me, nunca! Queres esse dinheiro? Ámanhã; hoje; agora mesmo! Se o desejas, não tenho mais do que ir buscal-o a casa do meu banqueiro...