Os fidalgos, que n'esse tempo—menos por necessidade, do que pelo prazer de manifestarem aos quatro ventos do céu o seu desamor pela archeologia—esbanjavam sem dó nem piedade, os mais preciosos objectos de arte, deparados nos empoeirados sotãos dos seus castellos feudaes, correram atropellando-se ao escriptorio do conde de S. Luiz, afim de ver qual seria o primeiro a depositar nas mãos do magnate as nobres reliquias dos seus preclarissimos antepassados. Não tardou que o palacio do conde de S. Luiz se tornasse n'um museu de antiguidades! Retratos houve de familia, que foram jazer empilhados na estrebaria por não lhes permittirem os salões o seu elevado porte.

O conde, pagava tudo com prodiga generosidade, o que lhe deu o triste resultado de alguem lhe metter um collar de perolas falsas por barrocas, o que elle generosamente acceitou e pagou, attendendo que esse mesmo collar havia figurado no pescoço de um grande ministro de um excelso monarcha.

Juntem se a estas nobres qualidades, uma mesa esplendida, e que o leitor avalie se a casa do conde de S. Luiz seria ou não frequentada.

O conselheiro Poderosa, graças ás ausencias do visconde, de dia para dia se tornava mais sympathico para Olympia, para o conde e para a condessa.

Olympia adivinhava no conselheiro, não só um marido exemplar, como um dedicado companheiro de mesa, prompto sempre a affrontar qualquer ataque apopletico por mais anormaes que fossem as epochas.

O conselheiro comia e bebia por dez conselheiros, o que era extremamente agradavel para Olympia, porém, quando ella um dia notou que depois do jantar, os olhos do seu futuro se fitaram brandamente n'uma othomana que estava proxima, Olympia exultou de alegria, e viu n'esse homem, o unico individuo capaz de fazer a sua felicidade: comer e dormir, acordar e comer!

Olympia esperava apenas que o conselheiro a pedisse a seu pae.

A condessa sabia d'estes amores. Por mais de uma vez tinha dito a Olympia, que pela sua parte não encontraria a menor opposição.

Exceptuando duas pessoas, todos alli viviam felizes: essas duas, eram Magdalena e o conde de S. Luiz! O que entre ambos se havia passado, sabia-o apenas Deus, que ajudára a primeira nos seus pedidos e escutara as promessas do segundo!

Quanto á condessa de S. Luiz, ou porque a sua alegria não lhe tivesse dado tempo a reflectir na tristeza do conde e de sua filha ou porque inteiramente lhes não desse importancia, não cuidava senão em distrahir os seus convidados.