—Pouco me importa com o que elles dizem, respondia lhe Martha. Não tenham de abocanhar no meu credito, o mais, tanto se me dá como se me deu. O que eu queria era ajudar a pobre velhinha.

—Pois tambem não tardará muito que lhe façamos algum bem, respondeu o mestre Jeronymo, como se um pensamento lhe acudisse ao espirito. Ámanhã tenciono ir a casa de tua madrinha, para que ella lhe possa obter alguma esmola da senhora Condessa. Que te parece, Martha? Continuou o mestre de obras, cravando os olhos no rosto candido de sua filha, e revelando no gesto o prazer que lhe ia n'alma, ao comparal-a com todas as raparigas suas visinhas.

—Muito estimarei que isso não fique no rol dos esquecimentos, respondeu a criança sorrindo-se ternamente para seu pae. Salvamos a pobresinha da morte, é mister não a desampararmos, nem deixal a morrer de frio ou de fome.

—De frio não morrerá ella por certo, acudiu Balbina, collocando o ferro de engommar sobre o descanço. Ainda esta manhã lhe dei o capote que punhamos no leito.

—Quer dizer, interrompeu Jeronymo, que de hoje em deante... se tivermos frio...

—Que nos havemos de contentar com os cobertores, respondeu a caridosa Balbina, tornando a pegar no ferro, e approximando-o da face para lhe calcular o calor.

—Seja o que vossês quizerem, que eu, pela minha parte nunca as reprehenderei por qualquer acção boa que praticarem; e já que tivemos a felicidade de salvar a vida d'essa infeliz, é justo não a deixarmos agora morrer ao desamparo. Estou da opinião da Martha.

—Ou eu me engano muito, ou a tia Marianna já teve melhores dias, disse Martha. Ha na sua vida algum mysterio que ella nos encobre, mas que, apezar de tudo, adivinhamos, respondeu Martha, com aquella intuição particular que tantas vezes se encontra no coração da mulher.

—O mesmo penso eu, ajuntou mestre Jeronymo. Nunca fui homem que frequentasse estas casas, porém reconheço ás vezes um não sei quê nas maneiras da tia Marianna, que me levam a crer que os seus principios não foram como os nossos; e tenho cá na mente, que mais dia menos dia tudo se ha de descobrir. Quando vossês hontem foram levar aquellas camisas a casa da fregueza, e que fiquei aqui em sua companhia, ainda mais me convenci das minhas suspeitas. «Sr. Jeronymo, disse me a tia Marianna, quem sabe se um dia a Providencia, lembrando se de uma desgraçada que abandonou sobre a terra, a tomará de novo debaixo da sua protecção. Se tal acontecer, lembre-se do que lhe digo hoje, nunca serei ingrata para uma familia a quem tanto devo.» Ora, além d'estas palavras serem proferidas, sim... assim como o outro que diz, com uns certos modos finos e delicados, levam-me a pensar que a tia Marianna não é, nem nunca foi o que parece. Em todo o caso, seja ella quem fôr, tem precisão, é necessario soccorrel-a, e hoje mais do que nunca, quando a inveja a começa a perseguir. Vejam lá a capellista! Até essa mesma, que eu suppunha tão virtuosa, como se uniu a todas as visinhas para lhe cortarem na pelle, mais a ti, minha filha! Valha nos Deus, que mundo este! ajuntou o mestre de obras, dirigindo-se para a cosinha, em cuja chaminé Balbina lhe havia posto a ceia a aquecer.

N'este momento bateram apressadamente ao postigo.