De uma formosura menos provocadora do que sua irmã, Magdalena sabia insinuar-se no coração de todos os que tinham a felicidade de lhe merecer sympathia.
Tinha na tristeza vaga e scismadora do seu olhar uns longes de melancolia que prendiam quem a contemplasse.
Sobretudo, o que mais espantava em Magdalena era a harmonia da voz. Assombrava! Os anjos deviam aprendel-a, para espalharem nos seus canticos a musica da palavra.
Falava pouco, porém a phrase era sempre correcta. Reservada mais por calculo do que por organização, a irmã de Olympia atravessava a sociedade com a consciencia segura e mathematica dos mil escolhos de que ella se compõe!
Ferira-a a aza negra da tormenta? A ave da desgraça esvoaçára-lhe sobre os seus louros cabellos? Desfizera-se-lhe algum sonho luminoso? Sentira o seu coração immenso, golpeado pelo punhal do desengano?
Todos o ignoravam, ou para melhor dizer, pessoa alguma se havia demorado a estudar aquella peregrina organização.
Magdalena nunca havia amado, porém o seu coração tinha necessidade de amar como os pulmões do ar que respiram.
Creando um dia na sua phantasiosa imaginação o typo que ambicionara, quiz-lhe dar vida, formas e animação. Quando mais tarde se lhe sumiu o vago, o impalpavel, o ideal que concebêra e que tombára na tristissima realidade, esmoreceu e curvou-se resignada para chorar a sós as suas lagrimas.
Prophetisa da amargura, como veremos na continuação d'esta singela historia, Magdalena parecia adivinhar as supremas angustias que mais tarde lhe haviam de escruciar a pobre alma!
Debalde, repetimos, se esforçava o visconde para merecer um olhar de Olympia.