—A melhor que se póde formar; que é uma excellente alma, e desambicioso de todas as grandezas do mundo.
—Fala serio?
—Quanto se póde falar.
—Julga portanto?...
—O quê?
—Que o seu projecto a respeito do hospital seja movido, pura e simplesmente, pela idéa de pôr em pratica uma obra de caridade?
—Assim o creio.
—Outro tanto não penso eu, meu nobre amigo. Ha em tudo aquillo um arrière pensée, ajuntou Lopes de Miranda, querendo mostrar ao visconde os seus conhecimentos linguisticos. O homem deseja um titulo.
Feliz em que o seu pensamento se tivesse encontrado com o do commendador, o visconde, como homem experimentado, calculou que o unico partido de que podia lançar mão, seria o dissuadil-o completamente das suas suspeitas.
—Crê portanto o commendador que essa caridade que antes de hontem viu dispensar ao mestre de obras, era movida apenas por um calculo? Quanto se illude! Seria necessario ter avaliado todas as circumstancias que se deram, para formar o seu juizo. O mesmo suppunha eu, mas logo vi o contrario. Ha factos que se não podem fingir, sr. Lopes de Miranda. Seria necessario que Tristão fosse um grande actor, para tão desassombradamente poder jogar com todas as paixões, como fez antes de hontem quando atropellámos esse infeliz. Seria tambem um calculo o interesse com que sua esposa se approximou do leito do moribundo, e calculo foi tambem de suas filhas, quando com as lagrimas nos olhos pediram ao medico informações do doente? Não me considero de uma credulidade parva, sr. commendador, mas a Cezar o que é de Cezar. Se Tristão, tem ou não desejo de entrar na sociedade precedido por um titulo, não me atrevo a dizel-o, o que lhe affianço, é que, se realmente tem esse desejo, não é elle o movel da sua caridade. Homens tem havido muito caridosos que desejam possuir um titulo, e Tristão póde muito bem ser um d'esses individuos.