Amára uma vez na vida! Amára com toda a força da sua alma, alma joven e inexperiente, para quem o mundo era um jardim florido, e cada pomo um goso, e cada goso uma esperança, e cada esperança uma existencia de immorredouras felicidades!

É que a sós entre o mar e o céu, o grito raivoso das paixões humanas, ferindo-lhe os ouvidos, jámais lhe havia interrompido os extasis, quando assentado ao leme da embarcação contemplava os astros que se reflectiam nas aguas prateadas do oceano, vagas como o seu pensamento, indecifraveis como as suas aspirações!

Conhecia apenas a ira do mar, mas a colera do homem envenenado pela inveja ou pela traição, jámais a havia sonhado o seu instincto.

Por isso vira na mulher o anjo, na sua convivencia a felicidade unica e possivel.

Amou!

E quão grande teria sido o affecto n'aquella grande alma?!

Possuia algum dinheiro das suas economias, julgou-se em circumstancias de casar.

Dois mezes depois, Mascatudo realizava no casamento todas as suas aspirações. Curta, porém, foi a sua ventura. A brisa da morte, agitando-se mysteriosamente sobre o tecto do seu ninho, devastou-lhe ao cabo de um anno flôres e fructo!

O triste voltou á vida do mar; e quando por noites caladas o seu barco sulcava as aguas do oceano, via-se ás vezes o tio Luiz encostado á amurada da embarcação, contemplando o firmamento, como que perguntando a cada nuvem em que paragem se occultava aquella metade da sua alma.

Desde então, Mascatudo viveu apenas para duas sepulturas: a da esposa e a da mãe!