Entre as pessoas que ordinariamente frequentavam a casa da viuva, distinguia-se o commendador Felix Justino de Araujo, homem probo e honesto para todos que tinham a honra de lhe merecer a sua confiança, o que elle prodigamente espalhava afim de conquistar as geraes sympathias.

Corriam varias edições ácerca da sua mysteriosa individualidade, chegando algumas pessoas a levar o seu arrojo a ponto de dizerem que o commendador não passava de um refinado velhaco, e que, mais dia menos dia, as suas gentilezas teriam de ser desmascaradas em praça publica; isto tudo, já se vê, proferido em voz baixa, depois de com elle terem gasto os joelhos das calças, nas respeitosas zumbaias que diariamente lhe dispensavam. É que já n'essa epocha, a raça de commendadores que hoje invade a capital começava a manifestar-se com toda a força do seu prejudicial desenvolvimento. Era muito de ver se como toda aquella gente o tractava no tocante a futeis banalidades. Riam-se uns dos outros, e todos em sua presença disputavam entre si, qual deveria ser o seu primeiro thuribulario.

Uns diziam que era viuvo, outros que era casado com uma mulher de baixa esphera, de quem tinha duas filhas, porém que se não atrevia a apresental-a na sociedade, em virtude das suas maneiras pouco distinctas.

A sua riqueza ninguem ao certo a poderia saber; porém o faustuoso luxo com que se tractava levava a suppôr que enormes rendimentos havia herdado da sua nobre ascendencia, cujos brazões nobiliarios fariam estremecer de inveja qualquer puritano.

Uma noite em que D. Marianna de Mendonça se queixava amargamente de um certo procurador, lembrou-lhe uma das suas amigas que talvez lhe fosse conveniente entregar a administração da casa ao commendador, se elle porventura a isso estivesse resolvido, e que ella mesma lhe falaria a tal respeito.

A viuva acceitou de bom grado o que a sua intima lhe propozera, e falando esta com o commendador, ao cabo de oito dias Felix Justino de Araujo tinha geral procuração para arrendar, subrogar, ou alienar qualquer propriedade, se por ventura assim o julgasse conveniente para o futuro do seu Manuel que, segundo o dizer do administrador, era tanto para elle como se fosse seu proprio filho.

Não tardou muito tempo que o magnate fizesse uso de uma das condições da procuração. Uma fazenda que Alvaro de Mendonça herdára por morte de uma tia, tres ou quatro annos depois de estar casado com a filha de Manuel Pires de Athayde, foi-lhe vendida em hasta publica. A venda fôra de um excellente resultado para a viuva, segundo o commendador affirmava, porquanto o seu principal rendimento eram arvores de fructa, e essas mais anno menos anno cairiam todas ao pezo d'uma epidemia que, segundo as suas observações agronomicas, teria de grassar d'alli a tempo, assaltando todas as fazendas sem exceptuar uma unica.

Em face d'esta cruel prophecia, quem se negaria a separar-se de qualquer terreno, por mais dolosa que fosse a venda?

O commendador empregou esse dinheiro n'uma industria cujo dividendo deveria exceder dez por cento.

Quasi todos deram os parabens á viuva pelo bom negocio que vinha de fazer, attendendo não só á grande differença do rendimento, como tambem a ter-se livrado d'esse terrivel cataclysmo, a que estava exposta conservando uma só arvore.