O fuzil, que imita a cobra,
Tambem aos olhos he bello;
Mas quando alumêa,
Tu tremes de velo.
Que importa se mostre chêa
De mil bellezas a ingrata?
Não se julga formosura
A formosura, que mata.
Evita, Glauceste, evita
O teu estrago, e desdouro;
A tua Eulina não vale,
Não vale immenso thesouro.

A minha Marilia quanto
Á natureza não deve!
Tem divino rosto,
E tem mãos de neve.
Se mostro na face o gôsto,
Ri-se Marilia contente:
Se canto, canta comigo;
E apenas triste me sente,
Limpa os olhos com as tranças
Do fino cabello louro.
A minha Marilia vale,
Vale hum immenso thesouro.

LYRA XVII.

Minha Marilia,
Tu enfadada?
Que mão ousada
Perturbar póde
A paz sagrada
Do peito teu?

Porém que muito
Que irado esteja
O teu semblante
Tambem troveja
O Claro Ceo.

Eu sei, Marilia,
Que outra Pastora
A toda a hora,
Em toda a parte,
Céga namora
Ao teu Pastor.

Ha sempre fumo
Aonde ha fogo;
Assim, Marilia,
Ha zelos, logo
Que existe amor.

Olha, Marilia,
Na fonte pura
A tua alvura,
A tua bocca,
E a compostura
Das mais feições.
Quem tem teu rosto,
Ah! não receia,
Que terno amante
Solte a cadeia,
Quebre os grilhões.

Não anda Laura
Nestas campinas
Sem as boninas
No seu cabello,
Sem pelles finas
No seu jubão.

Porém que importa?
O rico aceio
Não dá, Marilia,
Ao rosto feio
A perfeição.