Em quanto pasta alegre o manso gado,
Minha bella Marilia, nos sentemos
Á sombra deste cedro levantado.
Hum pouco meditemos
Na regular belleza,
Que em tudo quanto vive, nos descobre
A sabia Natureza.
Attende, como aquella vaca preta
O novilhino seu dos mais separa,
E o lambe, em quanto chupa a liza teta.
Attende mais, ó chara,
Como a ruiva cadella
Supporta que lhe morda o filho o corpo;
E salte em cima della.
Repara, como cheia de ternura
Entre as azas ao filho essa ave aquenta:
Como aquella esgravata a terra dura,
E os seus assim sustenta;
Como se encoleriza,
E salta sem receio a todo o vulto,
Que junto delles piza.
Que gosto não terá a esposa amante
Quando der ao filhinho o peito brando,
E reflectir então no seu semblante!
Quando, Marilia, quando
Disser comigo: he esta
De teu querido pai a mesma barba,
A mesma bocca, e testa.
Que gosto não terá a mãi, que toca,
Quando o tem nos seus braços, c'o dedinho
Nas faces graciosas, e na bocca
Do innocente filhinho!
Quando, Marilia bella,
O tenro infante já com risos mudos
Começa a conhecê-la!
Que prazer não terão os pais ao verem
Com as mãis hum dos filhos abraçados;
Jogar outros a luta, outros correrem
Nos cordeiros montados!
Que estado de ventura!
Que até naquillo, que de pezo serve,
Inspira Amor doçura.
LYRA XX.
Em huma frondosa
Roseira se abria
Hum negro botão.
Marilia adorada
O pê lhe torcia
Com a branca mão.
Nas folhas viçosas
Á abelha inraivada
O corpo escondêo.
Tocou-lhe Marilia,
Na mão descuidada
A fera mordêo.
A penas lhe morde,
Marilia gritando,
C'o dedo fugio.
Amor, que nos bosques
Estava brincando,
Aos ais acudio.