LYRA XXIX.
Eu descubro procurar-me
Gentil mancebo, e loiro,
Trazia a testa adornada
Com folhas de verde loiro.
Vejo ser o Pai das Musas,
E me entrega a lyra d'oiro.
Já basta, me diz, ó filho,
Já basta de sentimento;
O cançado peixe exige
Hum breve contentamento.
Louva a formosa Marilia
Ao som do meu instrumento.
Firo as cordas; mas que importa?
A dôr não socega em tanto.
Ergo a voz, então reparo
Que quanto mais corre o pranto
He mais doce, e mais sonoro
Meu terno, e saudoso canto.
Apollo fitou os olhos
Na mão, que regía o braço;
E depois de estar suspenso,
De me houvir hum largo espaço;
Assim diz: o Deos Cupido
Faz inda mais do que eu faço.
Eu te dou a minha lyra,
Louva, louva a tua Bella;
Porém vê que ta concedo
Com condição, e cautella…
Eu lhe corto a voz, dizendo,
Que só canto em honra della.
LYRA XXX.
O pai das Musas,
O Pastor loiro
Deo-me, Marilia,
Para cantar-te
A lyra de oiro.
As cordas firo,
O brando vento
Teus dotes leva
Nas brancas azas
Ao firmamento.
O teu cabello
Vale hum thesoiro;
Hum só me adorna
A sabia frente
Melhor que o loiro.