A quem ama quanto avista,
(Diz Cupido) não aterra:
Quem quer cingir o loureiro,
Tambem vai soffrer primeiro
Todo o trabalho da guerra.
Com tudo que te dilates
Neste sitio não convenho;
Deixa a estancia lastimosa,
Vem vêr a Salla formosa,
Aonde o meu Solio tenho.
Entro n'outro grande Templo:
Que perspectiva tão grata!
Tudo quanto nelle vejo
Passa além do meu desejo,
E o discurso me arrebata.
He de marmore, e de jaspe
O soberbo frontespicio:
He todo por dentro d'ouro,
E a hum tão rico tesouro
Inda excede o artificio.
As janellas não se adornão
De sedas de finas côres:
Em lugar de cortinados
Estão prezos, e enlaçados
Fastões de mimosas flores.
Em torno da Salla Augusta
Ardem dourados brazeiros;
Queimão rezinas, que estalão,
E postas em fumo exalão
Da Panchaya os gratos cheiros.
Ao pé do Throno os seus Genios
Alegres hymnos entoão:
Danção as Graças formosas;
E aqui as horas gostosas
Em vêz de correrem, vôão.
Estão sobre o pavimento,
Igualmente reclinados
Nos collos de seus amores,
Os grandes Reis, e Pastores
De frescas rosas coroados.
Mal o acôrdo restauro,
(Me diz, o Moço risonho:)
Como ainda não reparas
Em tantas cousas tão raras,
De que este Templo componho?
Sabes a historia de Jove?
Aqui tens o manso Touro;
Tens o Cisne decantado;
A Velha em que foi mudado,
Com a grossa chuva d'ouro.