Entremos, Amor, entremos,
Entremos na mesma Esfera.
Venha Pallas, Venha Juno,
Venha a Deosa de Cithera.
Porém não, que se Marilia
No certame antigo entrasse,
Bem que a Paris não peitasse,
A todas as tres vencera.
Vai-te, Amor, em vão soccorres
Ao mais grato empenho meu:
Para formar-lhe o retrato
Não bastão tintas do Ceo.

LYRA VIII.

Marilia, de que te queixas?
De que te roube Dirceo
O sincero coração?
Não te deo tambem o seu?
E tu, Marilia, primeiro
Não lhe lançaste o grilhão?
Todos amão: só Marilia
Desta Lei da Natureza
Queria ter izenção?

Em torno das castas pombas
Não rulão ternos pombinhos?
E rulão, Marilia, em vão?
Não se afagão c'os biquinhos?
E a provas de mais ternura
Não os arrasta a paixão?
Todos amão: só Marilia
Desta Lei da Natureza
Queria, ter izenção?

Já viste, minha Marilia,
Avezinhas, que não fação
Os seus ninhos no verão?
Aquellas com quem se enlação
Não vão cantar-lhe defronte
Do molle pouzo em que estão?
Todos amão: só Marilia
Desta Lei da Natureza
Queria ter izenção?

Se os peixes, Marilia, gerão
Nos bravos mares, e rios,
Tudo effeitos de Amor são.
Amão os brutos impios,
A serpente venenosa,
A Onça, o Tigre, o Leão.
Todos amão: só Marilia
Desta Lei da Natureza
Queria ter izenção?

As grandes Deosas do Ceo,
Sentem a setta tyranna
Da amorosa inclinação.
Diana, com ser Diana,
Não se abrasa, não suspira
Pelo amor de Endymão?
Todos amão: só Marilia
Desta Lei da Natureza
Queria ter izençao?

Desiste, Marilia bella,
De huma queixa sustentada
Só na altiva opinião.
Esta chamma he inspirada
Pelo Ceo; pois nella assenta
A nossa conservação.
Todos amão: só Marilia
Desta Lei da Natureza
Não deve ter izenção.

LYRA IX.

Eu sou, gentil Marilia, eu sou captivo,
Porém não me venceo a mão armada
De ferro, e de furor:
Huma alma sobre todas elevada
Não cede a outra força que não seja
Á tenra mão de Amor.