Eu vou mostrar-vos,
Tristes mortaes,
Quantos signaes
O Impio tem.
Oh! como he justo,
Que todo o humano
Hum tal tyranno
Conheça bem!

No corpo ainda
Menino existe:
Mas quem resiste
Ao braço seu?
Ao negro Inferno
Levou a guerra:
Vencêo a terra,
Vencêo o Ceo.

Já mais se cobrem
Seus membros bellos;
E os seus cabellos
Que lindos são!
Vendados olhos,
Que tudo alcanção,
E já mais lanção
A setta em vão.

As suas faces
São côr da neve;
E a bocca breve
Só rizos tem.
Mas, ah! respira
Negros venenos,
Que nem ao menos
Os olhos vem.

Aljava grande
Dependurada,
Sempre atacada
De bons farpões.
Fere com estas
Agudas lanças,
Pombinhas mansas,
Bravos leões.

Se a setta falta
Tem outra prompta,
Que a dura ponta
Já mais torcêo.
Ninguem resiste
Aos golpes della:
Marilia bella
Foi quem lha dêo.

Ah! não sustente
Dura peleija,
O que deseja
Ser vencedor.
Fuja, e não olhe,
Que só fugindo
De hum rosto lindo,
Se vence Amor.

LYRA XI.

Naõ toques, minha Musa, não, não toques
Na sonorosa Lyra,
Que ás almas, como a minha, namoradas
Doces Canções inspira:
Assopra no clarim, que apenas sôa
Enche de assombro a terra;
Naquelle, a cujo som cantou Homero,
Cantou Virgilio a Guerra.

Busquemos, ó Musa,
Empreza maior;
Deixemos as ternas
Fadigas de Amor.