Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras. Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se, faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de conversação, de interesse e de verve. Os officiaes cumprimentavam as senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro, trocavam-se ponderações alegres, chistosas, grivoises, entre os que estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em funeral.
Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada, entre as musicas funebres dos regimentos em fórma e os chistes das multidões indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragança.
Dizia-se fallando-se d'ella:
«Deixou pouco.»
«Que fez ella ao que tinha?»
«Que miseravel! que mesquinha!»
E um jornal catholico escreveu:
«O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em cautellas de vinte e cinco.»
Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os homens deseguaes.
Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que ellas nos deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.