Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr. delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que delicto? «Por abuso de defesa».
Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico—por abuso de defeza.
Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas não abuse. Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar: contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos. Quantas vezes a gente se revolta por spleen, por tedio, por vapores, por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã, espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe diga assim:—«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!»
E se o povo ainda assim resistir—diacho ... então, que o exercito fuja!
Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o ...
Mas se não foge, o ministerio publico querela-o ...
Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite. Melicio vela!
A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo—uma figura de rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara—uma funda.