N'este drama ha tres typos principaes:
O amante—Um Hamlet de aldeia, um Conrado, um cavalleiro negro—de Figueiró dos Vinhos. Dandy melancholico, como um Satanaz em uso de figados de bacalhau. Um Alcibiades quebrado. Um pallido cherubim portador de uma paixão e de uma tenia. Typo lamartiniano, o anjo caturra da velha ode, a personalisação do antigo amor lyrico—sob os symptomas lancinantes e urgentissimos da colica.
A noiva—Menina educada no convento. Creada com doces de freiras e com livros de versos. Organisação de ovos de fio e de romances baratos. Amor e dispepsia. Pouco cerebro e muita cuia. Não faz saborosos coscorões, não deita alvas teias de linho nem gordas ninhadas de perus como sua mãe, casta e sabia Penelope. Ella corta a serena tradicção burgueza e rural da familia. Despresa com ascos as conservas do lombo de porco em vinho e alhos. Cultiva a orthographia e a arte poetica com mais disvello, mas menos proveito que aquelle que sua mãe tira do cultivo modesto das alfaces, das finas hervas, dos primores horticolas. Não ama finalmente senão uma coisa—o talento!... Pobre rapariga! desditosa burgueza! que esteril e que perigosa idolatria a tua! O talento!... a divina inspiração!... o supremo encanto!.. Coitada! se acreditas n'isso, estás perdida. A tua imaginação doente entregar-te-ha submissa, humilhada, ridicula, ao primeiro noticiarista de soirées que te appareça, á primeira bas-bleu que te escreva cartas, ou á primeira actriz que te beije e abrace. O talento!... Mas não ha nada verdadeiramente respeitavel senão o trabalho, a abnegação, a perseverança, o sacrificio e a virtude. O talento é uma simples fanfarronada. O talento é uma invenção dos bohemios para substituirem a toilette e a roupa branca. O talento é um falso titulo clandestino de apresentação, fabricado por aquelles que não teem titulos legitimos para que a sociedade os receba. Fazer-se passar como «tendo talento» é um meio de cada um se eximir a que lhe perguntem se «tem caracter.» O talento finalmente é o seguinte typo d'esta peça:
A amante do noivo—Uma actriz que foi educada no convento com a noiva o que, passados annos, a noiva recebe em sua casa com reconhecimento, com adoração, com enthusiasmo, apezar da actriz não ser senão uma lorette; uma artista aux camelias; grande genio de petit-lieu; celebridade baptisada com Champagne, entre rapazes, depois das ceias, em gabinetes reservados. Um martyrio, se quizerem, mas um martyrio que exige um bracelete e uma nota do banco para se estender na sua cruz. Uma paixão, se isso lhes apraz, mas uma paixão Rigolboche, que se concilia com o cancan, que adopta a arte para canalisar o vicio, que nunca chega ao fel do seu calix por que o tem sempre cheio de Malaga ou de pale-ale; que pede uma mortalha, mas talhada por Worth, á Rabagas, com rendas de vinte libras o metro. Uma Magdalena emfim, mas uma Magdalena penetrada do peccado moderno, barato, para todo o mundo, cheirando aos sitios publicos, ao tabaco de fumo, á cerveja azeda e ao gaz extravasado.
O drama. O noivo acha que Tant-de-charmes é mil vezes mais interessante do que La-vertu-même. Por tanto o noivo abandona a noiva virtuosa e corre atraz da amante impudente. A burgueza abandonada vae então chorar aos pés da comica. Esta resolve devolver-lhe o noivo com tanto mais vontade quanto é certo que o noivo é a semsaboria toda d'este mundo na figura insignificante de um provinciano piegas, em primeira mão de conquista, que desmaia de puro amor ao declarar a sua chamma,—de sorte que é preciso gastar tanto com elle em sal ammoniaco para lhe restituir os sentidos quanto elle gasta em rhetorica para os fazer perder aos outros.
O noivo pois regressa para a noiva. A actriz faz uma phrase. E o panno cáe.
Ha n'esta peça uma personagem secundaria, sem acção nenhuma no enredo e no desenlace, para a qual nos parece um bom serviço á moral o chamarmos a attenção do publico. É uma burgueza que apparece no segundo acto em casa da noiva, onde está hospedada a actriz. Essa pessoa, de notavel juizo, que diz coisas justas a respeito das creadas e dos arranjos da casa, apenas sabe que ha na reunião para que a convidaram uma mulher cujos appelidos e cujos diamantes não se sabe d'onde procedem, toma sem mais cogitações o braço de seu marido, deseja á dona da casa o juizo que lhe falta, e retira-se em pleno escandalo.
O publico ri, e tanto na scena como na sala é um pouco apupada esta ménagére, que se declara abertamente incompativel, dentro do mesmo recinto e debaixo dos mesmos tectos, com uma actriz cocodette.