E conclue assim:

«N'este momento a visão desappareceu, e achei-me banhado em suor frio e repassado de amargura. E por impossivel tinha que tão negro futuro houvesse nunca de verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que diziam:—Guerra á religião do Christo! Então cri na visão que o Senhor me enviava, e apagou-se-me na alma o ultimo clarão de esperança.»

Ao terminarem a leitura, as turbas obscuras e humildes a quem o auctor se dirigira, e das quaes nós temos a honra de fazer parte, perguntam contristadas e attonitas:

Mas, bom Deus, poder-se-ha saber por que altos motivos está s.ex.ª o propheta banhado em suor frio e repassado de amargura?!

Ser-nos-ha dado apreciar quaes as razões por que o digno socio de merito de Jeremias e da Academia Real das Sciencias, apagou dentro da sua alma o ultimo clarão de esperança?

Sim! N'esta recente edição do seu opusculo, s.ex.ª o anjo, incumbido directamente por Deus de fazer resoar palavras de terror, explica satisfatoriamente o phenomeno pathologico da desesperança em sua alma e dos suores frios em seu corpo, por via de algumas laudas de introducção, destinadas a prehencher cabalmente os votos d'aquelles que tinham promettido aos deuses um propheta de cêra, se os deuses lhes consentissem penetrar o sentido da Voz do propheta.

A explicação d'essa voz que diz ao povo «que a sua hora extrema vae soar, que elle é maldito, que elle é empestado, que é pustulento e pôdre, vil e malvado, escoria, immundice e relé»,—a explicação da voz que diz e rediz isto em 118 paginas de uma prophecia de exterminio e de morte para o povo e para o paiz, é que:

A revolução de setembro triumphava com a democracia, o sr. Alexandre Herculano não acreditava na democracia, tinha-a pela «declamação interessada de engenhos superficiaes que pretendem jungir ao carro das proprias ambições as turbas más, porque ignorantes, odientas, porque invejosas, espoliadoras, porque miseraveis;» e Elle, o propheta, Elle, o anjo exterminador, Elle, o enviado de Deus ás gerações ... Elle era—cartista!


Se o sr. Herculano escreveu isto, que parece uma blasphemia pavorosa «O espirito de Deus passou pelo meu espirito e disse-me: vae, e faze, resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror ...»—é que naturalmente Deus era tambem—cartista.