Quando Quinet publicou a «Historia» das suas idéas, procurando dar sob uma fórma individual a historia moral da geração de que fez parte, á similhança do que parece ser intentado agora pelo sr. Herculano com a publicação dos seus opusculos, Quinet não obedecia ao desejo de servir um editor ou de entreter um inverno; Quinet, colligindo as suas idéas e recompondo o seu passado, arrancava da sua obra uma grande idéa, bella, radiante e fecunda: a coherencia, illuminando um caracter, e fazendo d'elle uma força moral.
Quinet não vinha entristecer-nos com a sua melancolia nem contaminar-nos com o seu desalento.
Se elle reconstituia e publicava os dispersos fragmentos obscuros de antigos trabalhos era exactamente porque d'esse agrupamento e d'essa reunião de idéas espalhadas pelas differentes edades e pelas diversas phases da sua vida sobresahia como um nobre exemplo o luminoso contentamento de uma alma perseverante e forte.
Decepções, chimeras, enganos, o que vem a ser essas coisas? ignoro-o; ahi está a minha vida, dizia cele. O que uma vez amei, em cada dia me pareceu mais digno do amor; de dia para dia adiei a justiça mais santa, a liberdade mais bella, a palavra mais sagrada, a arte mais real, a realidade mais artista, a poesia mais verdadeira, a verdade mais poetica, a natureza mais divina, o divino mais natural. E se me sobrasse tempo para ir mais ao fundo d'aquillo que ignoro, sinto que as coisas que ainda me espantam acabariam por desapparecer. Onde a inquietação se apoderara de mim, o enygma se decifraria por si mesmo. Eu repousaria na luz.
São os homens que podem extrahir do seu passado a lição que encerram essas formosas palavras os que teem direito de vir fallar-nos do seu passado. Os que não teem como lembrança dos seus dias decorridos senão o cansaço, o desalento, a indifferença o o desdem, podem fazer um serviço maior do que escrevel-o; é calal-o.
Concluindo não pediremos ao sr. Herculano que nos perdôe a ousada franqueza com que lhe fallamos. S.ex.ª sabe que a unica irreverencia criminosa diante de urna verdade que se possue consiste unicamente em esconder essa verdade. Que ella provenha do mais obscuro dos miseraveis ou da mais alta e mais competente das actividades, que importa? É preciso abate-a ou deixal-a passar. S.ex.ª conhece o dialogo asiatico de Salomão e de Marculf. Salomão é o grande rei, dotado de todos os dons, bello, omnipotente e sabio; Marculf é um villão-ruim, um rustico insolente e bestial. No emtanto as subtilezas populares do bobo esfarrapado embaraçam e humilham no seu throno o poderoso e sabio rei. Isto prova que a magnanima auctoridade e a sacrosanta lei escripta podem não perder tudo em escutar um simples, roto e despresivel raciocinio plebeu.
Bem sabemos que não somos nós que temos as finas subtilezas ironicas do bobo Marculf. Mas egualmente é certo que por outro lado o sr. Herculano tambem não é inteiramente o filho de David, rei de Israel, o que escreveu o Cantico dos canticos e edificou o templo.
Ao passo que o sr. Alexandre Herculano, historiador, publica opusculos, o sr. João Felix Pereira, opusculista, publica historia.—É a logica do absurdo.