O Estado respondeu:

Meu caro Inundado.—A tua estimada carta veiu encontrar-me em uma situação bem critica para te poder servir, como desejava.

Acho-me a braços com a resposta ao discurso da corôa, com a apparição dos granjolas e com a segarrega do Barros e Cunha. Falta-me tempo para me occupar de ti.

Pedi a sua magestade a Rainha para te abrir uma subscripção. A rainha acceitou gostosa esta incumbencia. Vieram a Palacio todos os banqueiros e todos os capitalistas da cidade. Nomearam-se commissões de homens e commissões de senhoras para promover bazares de prendas, concertos de amadores e recitas de curiosos em teu beneficio.

Dizes-me que não tens nada de comer. É pouco. Todavia espero que, com alguma economia, possas d'isso mesmo tirar alguns jantares, ainda que simples, com que te alimentes durante este mez e parte do que vem. Sê sobrio. Um bom caldo, um peixe, um assado, um prato de legumes e meia garrafa de vinho é quanto te deve bastar. Como não tens nada, resigna-te um pouco e abstem-te de champagne e de faisões dourados. Perdeste a casa, a mobilia e o fato. Vae para o hotel, enrola-te na tua robe de chambre e não saias por estes dias. Conserva-te no teu quarto, ao fogão, toma grogs e lê romances. Reveste-te de paciencia, já que não podes revestir-te de pano piloto, e espera.

Tudo está preparado e em via de execução para te acudir. Eduardo Coelho e Rio de Carvalho escrevem o hymno e estão no segundo moteto. O nosso Luiz de Campos prepara versos. Prepararam egualmente versos o nosso Thomaz Ribeiro, o nosso Pinheiro Chagas, o nosso Fernando Caldeira, o nosso Forte Gato, e outros.

É tal o movimento poetico e o consumo de rimas que escaceam já os consoantes para rainha; manda-me pelo telegrapho os que ahi tiveres disponiveis e mais proprios do alto estylo do que tainha, morrinha, doninha, carapinha, picoinha, espinha, ventoinha, gallinha e mezinha. Manda tambem para Pia os que poderes obter, menos os que pareça conterem allusões irreverentes como enguia, folia, tosquia, letria, azia, mania e bacia.

Cada um ajusta ao pé o patim da caridade e guina para seu lado em arabescos cheios de phantasia e de elegancia: está-se n'um skating rink de beneficencia para te accudir, meu grande maganão.

Além dos que fazem versos e dos que fazem hymnos, ha sujeitos a quem os teus revezes—tão lastimados elles são!—têem feito espigar mazurkas e rebentar polkas ... de pura dôr.

Entre as modistas tem havido largas discussões para se decidir se a caridade se deve fazer com decote ou com vestido afogado. Para os actos de beneficencia diurna têem-se adoptado geralmente os vestidos de meia caridade, de veludo ou casimira, abotoados. Para os rasgos de beneficencia nocturna as toilettes são sempre de grande-caridade, isto é: decotes quadrados guarnecidos de renda de Bruxellas, toda a cauda, luvas de dez botões, e diamantes.