SUMMARIO

A actual [situação politica]. Conceituosa parabola das moscas e das maselas. O [partido revolucionario e o partido conservador]. A funcção de um e outro d'estes partidos. Anarchia ou retrocesso. Extincção do partido revolucionario por falta de idéas. Mancommunação conservadora. Philosophica historia de uns almocreves e de um pipo de vinho. A profunda synthese do pipo do Estado.—As inundações. [Crise meteorologica]. Theoria da chuva. Os irrigamentos e as cheias. As civilisações e os rios. As previsões industriaes e economicas. O regimen das torrentes. A arborisação. Os diques provisorios. As fontes de Palissy. [Crise economica]. O Estado e o Inundado. Troca de correspondencias. Lisboa durante a crise: os salões, os espectaculos, a imprensa, o parlamento. Intervenção de sua magestade a rainha. A caridade como elemento de administração. Autopsia do anjo. De como este não baixou do ceu. Demonstra-se que saiu da arcada do Terreiro do Paço. A intervenção dos Prelados. As preces para mudar o tempo e os observatorios para o estudar. Os moinhos do [Tibet] e as cabaças dos Kalmuks. A intervenção da colonia portugueza no Brazil. O brazileiro que parte, e o brazileiro que chega. O patriotismo dos nostalgicos. A commissão de soccorros.—Um [banquete militar]. O que se passa dentro dos craneos sob a pressão das barretinas.—O centenario da [Academia das Sciencias]. A tradição academica. A Academia, berço da revolução e da liberdade. Ferreira Gordo, o abbade Correia da Serra, o padre Antonio Pereira, o duque de Lafões, academicos e jacobinos.—[O crime do Padre Amaro] romance d'Eça de Queiroz.

A [situação politica]...

Mas, perdão—antes de encetarmos este assumpto, uma pequena historia:

Era uma vez um velho burro. Fora madraço e manhoso. Não conquistára amigos porque os não merecia. Tinham-o lançado á margem no fim da vida. Principiou a viver ao acaso, pelos montes. Um dia achava-se defronte de um vallado, estacado ao sol sobre as suas quatro patas, inerte, immovel, olhando para um cardo secco com os seus grandes olhos redondos e encovados em orbitas esqueleticas, pensando nas vicissitudes da vida e procurando arrancar do seu cerebro, para se consolar, algumas idéas philosophicas.

Passou por elle e deteve-se a contemplal-o um joven asno, no viço das illusões, cheio de amor e de zurros, de alegria e de coices. A vetusta ossada angulosa do ancião parecia furar-lhe a pelle resequída e aspera. Um espesso enxame de moscas cobria-lhe as mataduras do lombo e dava-lhe o aspecto de ter um albardão feito de zumbidos e d'asas sobre um fundo de missangas pretas e palpitantes,—coisa rabujosa á vista.

—Sacode esse mosqueiro, disse-lhe o burro novo. Dar-se-ha o caso de que, á similhança do homem, deixasses tambem tu atrophiar o precioso musculo que ahi tens na face para por meio d'elle abanares a orelha e moveres a pelle?... Sacode-te, bestiaga!

Ao que o lazarento, pausado, retorquiu:

—Não sabes o que zurras, joven temerario! O destino de quem tem maselas é que o mosqueiro o cubra. As moscas que tu vês, e de que o meu cerro é a estalagem com mesa redonda, são moscas fartas, teem a mansidão abundante dos estomagos cheios. Se eu as sacudisse, viriam outras,—as famintas, de ferrões gulosos, que zinem como frechas, pousam como causticos, mordem como furunculos. As que tu vês prestam-me um serviço impagavel:—livram-me das que podem vir; são o meu xairel benigno e suave, o meu arnez, a minha couraça. Quando te chegar a idade de seres pasto de moscas (e breve te soará essa hora porque a mocidade é, como a herva, uma ephemera transição entre o alfobre da meninice e a palha da edade madura); quando te chegar o teu dia, lembra-te, asninho imprudente, d'este conselho amigo de um burro velho, que não aprende linguas, mas que tem a experiencia que vale tanto como o ouro: Nunca sacudas mosca desde que creares masela! Teme-te dos papos vasios das revoadas novas. Papos cheios não só não mordem mas até empacham! Comprehendeste, burrinho, a philosophia da minha inercia?