Instado a intervir pelos pactuantes da Granja, pelos signatarios do manifesto, pelos auctores do novo programma, pelos oradores dos meetings revolucionarios, pelos jornaes opposicionistas, o paiz responde-lhes:
Lestes a historia do sabio burro lazarento contada pelas Farpas? Eu sou esse burro. Vós sois a revoada das novas moscas pretendendo expulsar a revoada velha. Ora, moscas por moscas—sendo meu destino que ellas sempre me cubram e me comam—prefiro as antigas moscas saciadas ás novas moscas famintas.
Deixae-me em paz. E notae que eu nem sequer vos abano as orelhas,—que é para não bolir comigo!
Nuvens escuras, espessas, parecendo feitas da conjugação erea de Hymalaias de cinza e de Caucasos de cebo, toldam o céu, descem no espaço sobre as nossas cabeças, rolam pelos telhados com os idyllios felinos do mez de janeiro, cáem sobre os candieiros das ruas, espraiam-se pelo asphalto dos passeios, valsam nas ruas, envolvem os transeuntes em abraços aquosos que lhes atravessam o paletot, o collete de flanella e as articulações dos ossos; penetram em rodopio no interior das casas pelos resquicios das portas e das janellas, e na sua dança macraba as pardas e humidas filhas do ar cobrem de sofregos beijos molhados e bolorosos as lombadas dos livros, o liso marfim dos teclados, o marmore polido das chaminés, os cabellos que se desfrisam e as idéas que se dissolvem. Ao cabo de pouco tempo chove de toda a parte: chove do céu, chove das paredes e dos tectos das casas, das portas, da mobilia, dos castões das bengalas, dos abat-jours dos candieiros, e dos barretes de dormir. Ha dois violentos temporaes com poucos dias de espaço entre um e outro. Trasbordam os rios. Inundam-se os campos. Desenraizam-se arvores. Desmoronam-se casas. Os rebanhos, os instrumentos agricolas, os generos em deposito nos celleiros, os viaductos e os rails das linhas fereas são arrebatados pela corrente das aguas. O curso ordinario dos negocios, o movimento das mercadorias e dos viajantes suspende-se. Alguns dos habitantes das regiões inundadas ficam na miseria e têem fome.
Ha por tanto duas crises: uma [crise meteorologica] e uma crise economica.
Sendo a crise economica um effeito da crise meteorologica,a questão fundamental no estudo d'essas duas crises é a questão da chuva.
Esta questão acha-se definida e tem a sua theoria na sciencia.