Ha perto de trezentos annos que um velho naturalista, um modesto oleiro, um simples, um santo, Bernardo Palissy, ensinou a construir as fontes artificiaes, fazendo passar as aguas da chuva atravez de um pequeno trato de terreno arborisado sobre um declive de cimento argiloso, terminando n'um muro de supporte que se corta no ponto em que se colloca a fonte e onde se deseja que a chuva, armazenada no inverno entre as raizes do pomar plantado na encosta de subsolo sedimentado, venha a correr no verão em bica de agua mineralisada e limpida. Ha trezentos annos que isto se ensinou. Em Portugal, onde a chuva torrencial é um facto de quasi todos os invernos, onde a falta de agua potavel é um facto de quasi todos os verões, ainda ninguem aprendeu a construir a fonte de Palissy!

Em Lisboa cairam alguns muros e desabaram algumas casas. Se um ligeiro abalo de terra se tivesse seguido ás grandes chuvas é natural que muitos outros predios aluissem, porque a grave questão das edificações em Lisboa está absolutamente despresada e abandonada á rotina do velho systema adoptado pelo marquez de Pombal. Ora esse systema, aliás excellente no tempo da reedificação subsequente ao terremoto, é hoje imperfeito e perigoso. A canalisação da agua e as chaminés dos fogões de sala vieram modernamente alterar os dados do problema resolvido pela sabia administração pombalina. Os andaimes de madeira geralmente adoptados para sustentar os soalhos e os tectos ou apodrecem rapidamente ao contacto dos canos da agua que envolvem os predios ou se carbonisam por effeito do calor que lhes communicam os tubos das chaminés. A elasticidade que se tem em vista obter para evitar os desabamentos procedentes dos terremotos, substituindo os madeiramentos pela pedra, só poderia conseguir-se, sem perigo do apodrecimento ou da carbonisação, empregando nas construcções modernas o ferro em vez do pau. Esta modificação tão facil, tão economica, tão urgentemente exigida nos novos systemas de edificar, o nosso desleixo nacional não nol-a tem deixado ensaiar. De modo que a mesma previsão do perigo discorrida pelo unico homem que acordou em Portugal por occasião do grande tremor de terra com que á natureza benigna approuve tentar acordar-nos, essa mesma a nossa indolencia e a nossa incuria conseguiu converter dentro de poucos annos em mais uma causa de destruição e de aniquilamento!

Do regimen torrencial dos rios, da arborisação das montanhas, dos côrtes transversaes das vertentes, da construcção dos tubos de drenagem, das applicações da draga, dos diques moveis organisados por meio das grandes caixas de ferro fundido, caixas que boiam na agua em quanto vasias e que um pequeno vapor munido do um cabo de reboque poderia conduzir aos centos sobre o Tejo para os pontos da margem que conviesse resguardar pelo pequeno espaço de tempo necessario para evitar o perigo, quasi momentaneo, das inundações, do emprego finalmente de qualquer dos muitos meios conhecidos para dominar as cheias ou para utilizar as chuvas, ninguem se occupa—nem o governo que assiste ao espectaculo commodamente sentado nos seus fauteuils de orchestre e applica á marcha dos successos o seu binoculo de dilettanti correcto, imperturbavel, nem o parlamento, nem a imprensa, nem finalmente o paiz!


A [crise economica] não nos parece ter sido objecto de cuidados mais serios do que aquelles que cercaram a questão hydraulica. Ou é certo ou não é que a inundação do Tejo e os temporaes que concorreram com ella destruíram as casas, devastaram os campos, reduziram povoações inteiras á miseria e á fome. Se isto é uma pura invenção dos reporters sentimentaes, o diligente esforço humanitario empregado para arrancar da caridade o remedio supremo do grande mal é uma simples ostentação insensata e ridicula. Se são verdadeiras as informações que os jornaes vagamente nos transmittem das desgraças provenientes da inundação do Tejo e do Guadiana, n'esse caso a questão não se resolve pela caridade particular mas sim pela assistencia publica.

Porque—reflictamos um momento—ou existe esse conjuncto harmonico de instituições solidarias e responsaveis chamado o Estado, ou não existe.

Se não existe, em nome de que principio nos estão aqui a impôr o serviço militar, o exercito, as barreiras, as alfandegas, o funccionalismo e a lista civil?

Se o Estado existe, o que é para elle o lnundado? O Inundado é o productor e é o contribuinte. Agricultando o seu campo, creando o cavallo, engordando o boi, creando o porco, tosquiando a ovelha, pisando a azeitona, podando a cepa, descaseando o sobreiro, o Inundado desde tempos immemoraveis que não faz mais do que estas duas coisas: produz e paga.

Nós outros, habitantes do Chiado, assignantes de S. Carlos, socios do Gremio e do Club, frequentadores do Martinho e do Passeio Publico, nós, republicanos, regeneradores ou granjolas, commendadores de Christo e mesarios da confraria das Chagas, nós outros não produzimos e por conseguinte, em rigor, tambem não pagamos.

Funcionnerios publicos, capitalistas, banqueiros, ministros, oradores, poetas lyricos, jogadores na bolsa, proprietarios de predios, vendedores de bilhetes de loteria, consumidores insaciaveis de charutos, de copos de cerveja, de dobrada com hervilhas e de bolos de especie,—nós, francamente, não produzimos coisa nenhuma qae signifique dinheiro, isto é, trabalho crystalisado, obra, ou, por outra, valor. Somos apenas—mais ou menos legitimamente—os usufrutuarios, os administradores officiosos ou officiaes do dinheiro dos outros.