Na astronomia, na physica e na chimica, na geologia, na meteorologia, na zoologia, na medecina, na philologia quantos descobrimentos novos! E cada novo descobrimento é uma conquista nos dominios da Igreja, dominios que ella successivamente cede na mesma proporção em que a sciencia caminha.

É um novo diluvio aquelle de que a historia do pensamento humano nos offerece a imagem caudalosa e tremenda. A inundação espraia-se no vasto campo da theologia, e vemos ao longe, fugindo desgrenhadas, as ultimas superstições, medonhas como os grandes monstros pre-historicos que vão ser tragados pela vaga.

Cançada de combater a theologia finalmente rende-se. Tendo perseguido Galileu, Giordano Bruno, Savanarola, Averroes, Luthero, tendo combatido todos os iniciadores de um novo systema do universo ou de uma nova comprehensão dos destinos do homem, a Igreja vê apparecer [Darwin], e nem se quer tenta lutar!

O transformismo, revelado por Lamarck, supitado um momento na Academia Franceza sob a auctoridade funesta de Cuvier, é finalmente definido e promulgado, e todo o immenso edificio theologico da creação do mundo e do homem cae aluido pela lei da adaptação e da seleção natural na luta pela existencia.

Ás grandes revoluções nas sciencias physicas e naturaes succederam-se modificações equivalentes nas theorias e nas praxes da vida social, na economia, na administração, na politica, no sentimento, na critica, na poesia, na arte, na moral e na propria religião.

Da philosophia zoologica de Darwin sae um Deus como religião alguma tinha até hoje tido o poder de concebel-o, o unico Deus compativel com a noção da sabedoria infinita. Segundo os systemas da creação anteriores ao transformismo, e adoptados pela Igreja, Deus era o auctor de um universo que elle successivamente revia e emendava, depois de cada um dos cataclismos que passavam por cima da sua obra, como passa uma esponja sobre uma operação incorrecta. Segundo a theoria darwiniana, experimentalmente demonstrada e contraprovada pelos mais sabios analysadores, Deus não revê, Deus não corrige, Deus não se emenda, Deus não se aperfeiçôa sendo assim perfectivel e portanto imperfeito, como fatalmente deveriamos admittir que o era acceitando a doutrina do Genesis e a critica paleontologica de Cuvier e de todos os adversarios de Lamarck de Goethe, de Darwin e de Haeckel.

As especies extinctas não foram cortadas pelo Creador no livro da terra como por meio de um signal posto á margem na prova de uma segunda edição.

Os orgãos rudimentares dos animaes, os orgãos que não têem funcção, deixaram de ser excrecencias de stylo inadvertidas pelo auctor ou empregadas por elle com um intuito de ornato rhetorico. Se o homem, por exemplo, tem em estado rudimentar e na atrophia de uma inercia de milhares de seculos, uma cauda indicada pelas suas vertebras falsas, se tem mamillas sem amamentar, se tem utero sem conceber, se tem um segundo estomago sem ruminar, escusamos já hoje de explicar estes factos por um descuido indolente ou por uma emphase premeditada na confecção do nosso organismo. A evolução genealogica de todos os seres e a sua procedencia de um tronco ancestral commum, descoberta e provada pela lei de Darwin, basta para nos explicar cabalmente todas as apparentes anomalias da creação sem quebra da infalibilidade suprema.

Assim o Deus revelado ao mundo pelos modernos philosophos theistas é o unico Deus omnipotentemente sabio, o unico Deus verdadeiramente divino, porque não procede na obra da creação por emendas, revisões successivas, reedições augmentadas e correctas, como o Deus theologico: Elle cria a vida no atomo primitivo vogando na immensidade, deixa cair a cellula primordial nas profundidades fecundas do Mar Tenebroso e ordena-lhe que se desenvolva dentro de uma lei prefixa. Depois do quê não só não descansa, não só não revê, não só não modifica, mas nem sequer espera, porque infinito Elle mesmo, e prehenchendo o infinito no espaço e o infinito no tempo, possue em si proprio, completa, a infinita evolução.

Surge finalmente invencivel na sociedade contemporanea um novo poder temporal, o poder da industria, e um novo poder espiritual—o poder da consciencia na comprehensão da solidariedade humana.